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Mais de 20 mil vão às ruas em Porto Alegre

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Nem mesmo a chuva que caía desde o início da tarde sem parar impediu que mais de 20 mil pessoas de todas as idades e com as mais diversas motivações se dirigissem para a frente da prefeitura de Porto Alegre para mais uma manifestação. Às 18h, horário marcado pelo grupo Bloco de Luta pelo Transporte Público em sua página no Facebook, os ativistas já eram milhares.

Por volta das 18h30min, começaram a marchar observados de perto pela tropa de choque da Brigada Militar (BM), gritando em coro “O povo acordou” e “Sem violência”. Um grupo saiu pela avenida Júlio de Castilhos, outro pela Borges de Medeiros e um terceiro se manteve em frente ao Paço Municipal. A passeata voltou a reunir o grupo na avenida João Pessoa.

No percurso, o pequeno grupo de vândalos, que tem se posicionado alguns metros à frente dos manifestantes, gritava avisando que haveria vandalismo. “Melhor entrar”, avisavam para as pessoas que estavam nas suas casas olhando o movimento.

Em frente ao Jornal do Comércio, essa minoria ensaiou atos de depredação nas paradas de ônibus. Conforme o combinado pelo Facebook, os manifestantes sentaram no chão, deixando bem claro quem estava causando o tumulto – ajudando a BM a identificar “as individualidades”, como classificou o secretário da Segurança do Estado, Airton Michels, durante coletiva nesta semana.

No cruzamento da João Pessoa com a Ipiranga, o grupo que anunciava que haveria vandalismo dobrou à direita na pista Centro-bairro da Ipiranga. Os manifestantes pacíficos dobraram na mesma direção, mas na pista bairro-Centro, com o objetivo de caminhar até o Parque Marinha do Brasil. Muitos carregavam flores nas mãos e gritavam “Quem não pula quer o aumento” e “Vem prá rua”.

A caminhada prosseguiu sem incidentes até chegar na Ipiranga próximo à Azenha, por volta das 20h. Foi quando a BM passou a atirar bombas de efeito moral em direção aos manifestantes. Os policiais, que até então apenas acompanhavam a passeata, fizeram uma barricada humana impedindo o trânsito dos pedestres que se aproximavam da Azenha. Nesse momento, ficou evidente a separação entre quem estava na passeata para entrar em confronto e fazer depredações e quem estava fazendo um protesto contra o aumento das passagens de transporte público, a corrupção, os gastos com a Copa do Mundo de 2014, entre outras pautas.

Apesar dessa distinção entre a ala pacífica e a mais radical, a BM passou a atirar em qualquer pessoa que se aproximasse dos policiais. Michels e o governo do Estado garantiram que a polícia só iria agir em casos em que a integridade física das pessoas estivesse em risco. O pessoal cantava em coro “Sem violência” e vaiava a ação tanto da corporação quanto dos vândalos. Inúmeros ativistas foram alvo da ação sem terem enfrentado a polícia.

A partir daí começou o corre-corre. Enquanto o confronto ocorria, uma grande parte da manifestação ainda não havia nem chegado ao final da João Pessoa. A BM agiu para fazer todas as pessoas recuarem. Os vândalos passaram a saquear lojas, quebrar orelhões, arrancar placas de sinalização e atirar pedras e pedaços de pau contra os policiais e contra prédios públicos e privados.

A maioria dos manifestantes lamentava o fato. Pessoas mais velhas e as que estavam com crianças abandonaram o movimento com medo e por conta da quantidade de gás lacrimogêneo lançado pela polícia. No meio da correria, também havia gente chorando porque estava desde as 17h tentando chegar em casa e não conseguia pela falta de ônibus e pelo clima de guerra nas ruas. Quem se machucou no confronto passava carregado por amigos indignados com a situação.

Depredações e saques no Centro e Azenha

Perto das 21h, alguns manifestantes foram protestar em frente ao Palácio Piratini, ainda debaixo de chuva. Outros seguiam pela João Pessoa, reclamando da polícia e dos vândalos – mas, sobretudo, da polícia. A revolta foi visivelmente crescendo contra a BM a cada bomba de efeito moral.

Na João Pessoa, a agência do Banrisul foi novamente destruída pelos vândalos. A cavalaria entrou em ação. Em todos os cantos, atrás de árvores, de carros, as pessoas questionavam os brigadianos: “por que não nos deixam caminhar pela Ipiranga, da Azenha até a Beira-Rio, e permitem que os vândalos quebrem toda a cidade, com exceção desse trecho?”

Uma outra parte dos ativistas lamentava a violência e dizia não compreender o que está acontecendo no País. Mesmo assim, não arredavam pé das ruas, apesar do frio, da chuva e do gás lacrimogêneo. Declararam abertamente que gostariam de ter alguém que coordenasse e estipulasse outras rotas para não ficar junto dos vândalos. Em comum entre todos os grupos, a reclamação da ação policial.

Após o confronto na avenida João Pessoa, os manifestantes se dirigiram novamente à prefeitura e entraram em conflito mais vezes com a BM. A tropa de choque estava fazendo o isolamento do prédio, sem deixar que o pequeno grupo restante se aproximasse do local. Os enfrentamentos aconteceram na rua José Montaury, no Largo Glênio Peres, na Siqueira Campos e na Esquina Democrática. Diversas ruas do Centro da Capital foram bloqueadas pela polícia. Novas depredações e saques ocorreram no Centro, especialmente em lojas na avenida Voluntários da Pátria. Pelo menos 35 pessoas ficaram feridas, sendo um policial militar. Mais de 15 foram presos.

Fonte: Jornal do Comércio

Mais de um milhão deve ir às ruas hoje em 80 cidades

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RIO, PORTO ALEGRE E SÃO PAULO — Mesmo depois que São Paulo e Rio suspenderam os reajustes nas tarifas do transporte coletivo, mais de um milhão de pessoas se comprometeram, por meio das redes sociais, a comparecer aos protestos convocados para hoje em pelo menos 80 cidades do país, 17 delas capitais. Além das cidades grandes, as manifestações devem paralisar, ainda, municípios de médio porte. Em um esforço para frear atos de vandalismo — inclusive os saques — os próprios organizadores reforçam, na rede, o caráter pacífico das passeatas.

A reivindicação pelo cancelamento do reajuste das passagens de ônibus já está adaptada à realidade peculiar a cada cidade. As demandas variam entre exigência por mais segurança até construção de barragens. Enquetes checavam os principais pedidos. As pesquisas eram feitas também para sugerir roupas e palavras de ordem. Além do Rio, em Salvador os protestos vão ocorrer em meio aos jogos da Copa das Confederações.

Manifestações simultâneas

No Rio, 231 mil pessoas haviam confirmado presença pelo Facebook, até a noite de ontem. Em São Paulo, os confirmados chegavam a 153 mil. São os dois maiores atos, com base na movimentação virtual. Em seguida, aparecem Recife (97 mil) e Campinas (66 mil). Ao todo, 12 milhões de convites haviam sido distribuídos pelo Facebook — muitos recebem mais de um convite ou não são da cidade onde haverá o ato.

A maior parte das manifestações acontecerá simultaneamente e no horário de saída das pessoas do trabalho. No Rio, o protesto “Um milhão na rua”, com início às 17h, vai caminhar da Candelária até a prefeitura. Na capital paulista, a concentração será também às 17h, na Praça do Ciclista, na Avenida Paulista.

“Mesmo com a diminuição da passagem, o ato está confirmado. É muito mais que 20 centavos que queremos. Eduardo Paes afirmou que a redução será paga com recursos públicos (saúde, educação…). Queremos que seja paga do lucro dos empresários”, diz texto na página do Facebook que convoca para o protesto no Rio.

No Rio, é grande a preocupação para separar da manifestação pessoas que tenham como objetivo usar a concentração para promover quebra-quebra ou saques. Para tentar manter os manifestantes dentro do trajeto — na segunda-feira, um grupo se deslocou para atacar a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) —, eles vão levar para as ruas carros de som para manter a multidão concentrada e faixas com mensagens sobre as reivindicações que serão usadas para delimitar a área do percurso.

— Embora o nosso protesto seja pacífico, estamos preocupados com a segurança das pessoas. Vamos fazer o possível para manter o grupo coeso dentro do trajeto que foi votado em reunião e firmes nos nossos objetivos — disse Gabriel Siqueira, de 23 anos, professor de história que faz parte do Movimento do Passe Livre.

Fonte: O Globo

O RECADO DOS JOVENS

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A história está repleta de datas que sintetizam espíritos e épocas. Sem esperar pelo veredicto da posteridade, já é possível afirmar que o 17 de Junho é o retrato de um novo Brasil. O país que foi para as ruas protestar na segunda-feira reflete um novo estado de ânimo de uma ampla parcela da população: rejeição à corrupção e ao descaso com a coisa pública, desconfiança de governantes e partidos, indignação com a desproporção entre os gastos com grandes eventos, por um lado, e com saúde, educação e transporte, por outro. O país que tomou praças e avenidas sente os efeitos da alta de preços de alimentos e serviços. A nação que tomou a palavra antevê, para além dos sinais incipientes de turbulência econômica, os percalços de um futuro que parece menos auspicioso do que há alguns anos. Sua voz ergue-se também contra governos, parlamentares, corporações e meios de comunicação. Pode-se saudar ou rejeitar a emergência desse Brasil do 17 de Junho. Mas não se pode ignorá-lo.

É utópico imaginar que dezenas de milhares de pessoas decidam se manifestar por fora dos canais até hoje existentes no interior do Estado de direito, por meio de ida massiva às ruas, sem que isso implique riscos para a segurança e até mesmo distúrbios isolados. É preciso separar a manifestação legítima e democrática da maioria das depredações, incêndios e pichações promovidos por uma ínfima minoria oportunista. Toda sorte de vandalismo pode e deve ser investigada, e os envolvidos, enquadrados criminalmente na forma da lei. O fato de tais atitudes terem prosperado nos primeiros dias do movimento reflete o fato de não haver objetivos, líderes e organização claras.

O mais importante é que a nação seja capaz de retirar ensinamentos dos acontecimentos. Em síntese, os jovens nas ruas estão enviando um recado para toda a sociedade, incluindo governantes, políticos, empresários e imprensa. O sentimento da maioria é, como bem sublinhou a presidente Dilma Rousseff ao citar o cartaz “Desculpem o transtorno, estamos mudando o Brasil”, carregado de civismo e boas intenções. É positivo que milhões de pessoas com menos de 30 anos estejam se dispondo a assumir um papel de protagonistas na história. Trata-se de uma geração que jamais viveu períodos de exceção ou de cerceamento de liberdades. Para o bem do país, esse aprendizado deve ocorrer de forma serena. A sociedade tem de saudar e acolher esse verdadeiro despertar jovem, zelando para que fortaleça o Estado democrático de direito. Não resta dúvida de que todos seremos testemunhas dos reflexos concretos do que está acontecendo hoje daqui a pouco mais de um ano, nas eleições presidenciais de 2014. É desejável que a experiência histórica de cada geração se reflita na participação eleitoral por meio do embate entre ideias, programas e concepções.

Fonte: ZH | Editorial

Fortunati promete reduzir passagem para R$ 2,80 em Porto Alegre

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Projeto de Lei será encaminhado nesta terça-feira (18) na Câmara.

Prefeito condena vandalismo e diz que viu mais de 300 ‘baderneiros’
O valor da passagem de ônibus em Porto Alegre será reduzido para R$ 2,80, no mínimo, garantiu o prefeito José Fortunati nesta terça-feira (18), após mais um protesto realizado na capital, acompanhado de manifestações espalhadas pelo país na noite de segunda-feira (17). A queda no valor, segundo ele, será possível pela isenção do Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN) sobre o transporte coletivo.

“Hoje encaminho para a Câmara de Vereadores o Projeto de Lei para isentar totalmente o ISSQN sobre o transporte coletivo. Apanhando a tarifa atual (R$ 2,85), fazendo as adequações do TCE(Tribunal de Contas do Estado), retirando PIS, COFINS, e ISSQN, chegaremos a uma tarifa de R$ 2,80″, disse o prefeito à Rádio Gaúcha.

Ainda segundo Fortunati, também nesta terça ele pedirá ao governador Tarso Genro a isenção de ICMS no óleo diesel do transporte coletivo. “Com isso, no mínimo, teremos redução para R$ 2,75 a R$ 2,70, dependendo do cálculo. No pior cenário, se houver uma redução, vai para R$ 2,80″, completou.

Fortunati diz ter certeza de que a Câmara irá aprovar a sua solicitação em regime de urgência. Quanto ao pedido ao governador, se for acatado, a Justiça ainda precisará decidir sobre a liberação. “Isso porque ainda estamos sub judicie, é preciso que a Justiça libere”, esclareceu.

Caso a redução se confirme, Fortunati adiantou que a prefeitura abrirá mão de R$ 15 milhões que são arrecadados com o transporte público em Porto Alegre. “Vai ser cortada de alguma área, é um subsídio”, ressaltou.

Prefeitura condena vandalismo
O prefeito José Fortunati fez seu relato sobre a manifestação da noite de segunda em Porto Alegre. Ele acompanhou a movimentação nas ruas no Centro Integrado de Comando (CEIC), que capta através de câmeras imagens de diversos pontos da cidade para monitoramento. De acordo com o prefeito, os manifestantes que partiram para o vandalismo no protesto eram mais de 300.

“O que chama atenção é que existem centenas, milhares de jovens que protestam por várias causas, mas existem outros, que não são tão minoria, que estão aí para depredar. Não podemos fechar os olhos para os que estão se aproveitando do momento para causar esse tumulto. Os baderneiros foram para a rua com o propósito de depredação. Tem que separar, as é muita gente. Vi grupo superior a 300 manifestantes depredando”, disse.

O protesto
O protesto reuniu cerca de 10 mil manifestantes no início da noite no Centro de Porto Alegre. Eles partiram da prefeitura em caminhada criticando o preço dos transportes, os gastos com a Copa do Mundo e o custo de vida no país. A passeata seguiu pacífica, até que integrantes do movimento fizeram estragos em contêineres, lojas e até sede de partido. Grupos contrários à violência respondiam com vaias.

A Brigada Militar agiu depois de o vandalismo iniciar. O confronto começou na Avenida Ipiranga, onde o Batalhão de Operações Especiais fez um cordão de isolamento próximo à esquina com a Avenida Erico Verissimo e usou bombas de gás lacrimogênio para conter manifestantes. Cavalos foram usados para dispersar a confusão.

Mesmo assim, alguns manifestantes foram para a Avenida João Pessoa, onde, por volta das 22h, colocaram fogo em um ônibus na altura do Parque Farroupilha (Redenção).

O Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) de Porto Alegre montou uma operação para limpar a cidade após mais um dia de protestos. Cerca de 70 garis trabalharam durante a madrugada na área Central do município.

Ao todo foram 52 contêineres de lixo depredados, sendo 23 incendiados apenas na Avenida João Pessoa. Caminhões coletores foram destacados pelo DMLU para fazer a retirada do lixo durante a madrugada. A coleta do lixo domiciliar está preservada, afirma o órgão.

Brasileiros tomam as ruas do país contra corrupção, gastos públicos na Copa das Confederações e por mobilidade urbana

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Uma série de manifestações mobilizou milhares de brasileiros em diferentes cidades do país nesta segunda-feira (17). Em São Paulo, os protestos reuniram pelo menos 30 mil pessoas. No Rio de Janeiro, ainda não há estimativas oficiais, mas a Cinelândia ficou tomada de manifestantes. Em Belo Horizonte, entre 18 mil e 20 mil pessoas. Em Brasília, cerca de 10 mil pessoas estão concentradas na Esplanada dos Ministérios e parte dos manifestantes chegou a subir a rampa e está neste momento na cobertura do Congresso Nacional.

Com o mote “Não são apenas 0,20 centavos”, além de se posicionar contra o preço do transporte público, os protestos criticaram a condução da política brasileira, a corrupção, os gastos públicos com as obras para as copas das Confederações e do Mundo de 2014.

As manifestações começaram a tomar corpo na última semana após as ações da Polícia Militar (PM), em São Paulo, que reagiram aos manifestantes contrários ao aumento da tarifa de transporte público na capital paulista. O episódio levou a Defensoria Pública do Estado de São Paulo a questionar a atitude da PM.

Em São Paulo, os manifestantes se concentraram no Largo da Batata e depois ocuparam as oito faixas da Avenida Brigadeiro Faria Lima.

Ao contrário do que ocorreu na última manifestação, na quinta-feira (13) – quando a presença da PM foi ostensiva – ativistas e policiais entraram em acordo e, até o momento, não houve registro de conflito.

No Rio de Janeiro, as dezenas de milhares de manifestantes marcharam pela Avenida Rio Branco e se dirigiram à Cinelândia, na região central da cidade, onde ocuparam as escadarias da Biblioteca Nacional e da Câmara de Vereadores. De lá, seguiram pela Avenida Almirante Barroso em direção à Avenida Presidente Antonio Carlos até a Assembleia Legislativa do Estado (Alerj). Houve confronto com a polícia e algumas pessoas queimaram um carro e depredaram uma viatura da PM.

Na capital mineira, a concentração do protesto teve início na Praça 7, no centro da capital. De lá, os manifestantes se dirigiram à Arena Mineirão, onde foi disputada nesta segunda a partida entre Nigéria X Taiti, pela Copa das Confederações.

Em Brasília, o protesto começou às 17h. Os manifestantes se concentraram em frente ao Museu da República e, de lá, marcharam em direção ao Congresso Nacional, na Esplanada dos Ministérios. No momento, eles estão na cobertura do Congresso e tomam também o gramado em frente ao Parlamento.

Apesar do caráter pacífico das manifestações, ressaltado pela palavra de ordem “Sem violência”, entoada em todos os protestos, confrontos entre policiais e manifestantes foram registrados em Belo Horizonte, emBrasília e no Rio de Janeiro.

Também houve registro de protestos em Fortaleza, em Curitiba, em Porto Alegre, em Salvador, em Belém e Campinas. Nós próximos dias, as manifestações, convocadas por meio das redes sociais, devem prosseguir.

Fonte: Agência Brasil

Principais dos jornais do mundo dão destaque aos protestos no Brasil

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Os principais jornais do mundo publicaram hoje (18) na capa, com destaque, notícias sobre os protestos de ontem (17) em várias cidades brasileiras. O El País, da Espanha, estampou a manchete Nossos 20 centavos são o parque de Istambul, comparando os protestos contra o aumento das tarifas de ônibus no Brasil às manifestações na Turquia contra a transformação de um parque em centro comercial.

Com várias fotografias mostrando os confrontos entre policiais e manifestantes, o El País diz que as manifestações foram as mais violentas, desde 1992, quando houve os protestos contra o então presidente Fernando Collor de Mello. O texto destaca que mais de 200 mil pessoas saíram às ruas das principais cidades do país.

O jornal italiano Corriere della Sera destaca, também na capa, que os manifestantes protestaram contra o aumento dos preços das passagens de ônibus e os gastos públicos com a Copa do Mundo de 2014. As fotos que ilustram a reportagem são do protesto em Brasília, com a ocupação da rampa do Congresso Nacional, e as manifestações nas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro.

O Corriere della Sera menciona a afirmação do secretário-geral da Presidência da República do Brasil, Gilberto Carvalho, que disse que a presidenta Dilma Rousseff está “preocupada” com os protestos.

O jornal britânico The Guardian ressalta, na reportagem, que a maioria das manifestações começou de forma pacífica, mas ao longo dos protestos, houve enfrentamento entre manifestantes e policiais. O jornal destaca a informação da ministra da Secretaria de Comunicação Social, Helena Chagas, de que Dilma acredita que “os protestos pacíficos são legítimos e adequados”.

No texto do The Guardian, há informações de que os líderes dos protestos usaram as redes sociais, como o Facebook, para chamar os manifestantes para os atos.

O jornal francês Le Monde publicou uma reportagem, em tópicos, destacando as manifestações em Brasília, São Paulo, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. A violência é ressaltada no texto e nas fotografias de manifestantes feridos. Há, ainda, menção ao jogo do Taiti e da Nigéria, em Belo Horizonte, na Copa das Confederações. O estádio em que ocorreu a partida também foi alvo de protestos.

O jornal norte-americano The New York Times publica um texto com vários adjetivos informando que os manifestantes reclamaram do “alto custo de vida e gastos extravagantes” com a Copa do Mundo de 2014. Também faz críticas à ação policial, avaliando que houve o uso da “mão pesada” por parte dos policiais.

No The New York Times, há uma galeria com imagens de manifestações em várias cidades do país. O texto compara os protestos no Brasil aos ocorridos na Turquia, em Nova York e Oakland, nos Estados Unidos, na Espanha, na Síria, na Líbia, no Bahrein, no Egito e na Tunísia.

Fonte: Agência Brasil

Protestos reúnem 230 mil em 12 capitais e governantes viram alvo

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Ao menos 50 mil marcharam só em São Paulo e grupo tentou invadir o Palácio dos Bandeirantes; no Rio, 100 mil foram às ruas e, em Brasília, Congresso teve cúpula ocupada

Uma nova onda de protestos, maior do que as anteriores e com um leque de reivindicações mais amplo, voltou a tomar conta das ruas de importantes cidades, em diferentes regiões, nessa segunda-feira, 17. A maior, em São Paulo, reuniu ao menos 50 mil pessoas, segundo estimativa da PM. Foi a quinta na capital paulista e a primeira sem confrontos abertos com a polícia. No final da noite, um grupo minoritário tentou invadir o Palácio dos Bandeirantes e foi repelido com bombas de gás. Em todo o País, cerca de 230 mil pessoas foram às ruas. As marchas foram caracterizadas sobretudo por expressões de rejeição da política institucional.

Em Brasília, manifestantes furaram o bloqueio policial e invadiram a área externa do Congresso, aos gritos de “o Congresso é nosso”. Cartazes com os dizeres “Fora Renan” e “Fora Feliciano” apareceram no ato, referindo-se ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-RN), e ao presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o pastor evangélico Marco Feliciano (PSC-SP).

No Rio, 100 mil pessoas se reuniram nas imediações da Assembleia Legislativa, que virou palco de um violento confronto. Pelo menos cinco PMs e sete manifestantes foram feridos – 1 deles a tiros -, e 77 PMs ficaram sitiados no Palácio Tiradentes.

Transparência e combate à corrupção foram exigências levadas às ruas em Porto Alegre. Em Belém, a cobrança de redução dos índices de criminalidade na cidade, uma das mais violentas do mundo, apareceu com destaque.

Curitiba, Belo Horizonte, Salvador e Maceió também registraram manifestações de rua. Os protestos se estenderam ainda para cidades do interior, como Londrina, no Paraná.

Foram registrados confrontos com a polícia em Porto Alegre, Belo Horizonte, Rio e São Paulo. De maneira geral, os atos violentos envolveram pequenos grupos e ocorreram no fim dos protestos.

Insatisfeitos. O ponto de ligação entre os manifestantes nas diferentes cidades continuou sendo o protesto contra as tarifas dos transportes urbanos. Os repórteres do Estado verificaram, porém, que aumentou a variedade de grupos de insatisfeitos que aderiram aos protestos, com novas demandas.

A crítica à violência policial foi uma questão frequente. Os gastos do governo federal com a Copa do Mundo também estiveram entre os alvos. A caminhada em Salvador cobrou melhorias nos sistemas de educação e saúde pública.

Os participantes receberam demonstrações de simpatia dos moradores das ruas por onde passavam em diferentes cidades. Em São Paulo, na Avenida Brigadeiro Faria Lima, pessoas saíram às janelas dos edifícios comerciais para aplaudir e jogar papel picado sobre a passeata. Em Belo Horizonte, motoristas improvisaram um buzinaço de solidariedade.

Defensores do meio ambiente, feministas, organizações de direitos humanos, professores, e pais de manifestantes presos em atos anteriores foram alguns dos grupos que aderiram aos protestos.

A quinta manifestação contra o aumento da tarifa em São Paulo, embora tenha terminado com o confronto na sede do governo, não registrou a mesma violência das anteriores. Um pouco antes da passeata, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) havia confirmado que a PM dessa vez não usaria balas de borracha.

Bombas de gás lacrimogêneo, comuns nas manifestações anteriores, também foram recolhidas.

Hora de entender. Políticos de diferentes tendências se manifestaram sobre os protestos, defendendo o direito dos manifestantes. A presidente Dilma Rousseff disse que as manifestações são “legítimas e próprias da democracia”.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) criticou os dirigentes públicos que qualificam os manifestantes como baderneiros. “Os governantes e as lideranças do País precisam atuar entendendo o porquê desses acontecimentos”, disse. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que manifestações sociais não devem ser encaradas como “coisa de polícia”.

Fonte: Estadão

Quanto valem 20 centavos?

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Vinte centavos não são vinte centavos. Vinte centavos tornaram-se ao mesmo tempo estopim e símbolo de um movimento tão grávido de possibilidades que foi reprimido a balas de borracha, a bombas de gás lacrimogêneo e também a golpes de caneta. O que começou com o aumento da passagem do ônibus, se alargou, se metamorfoseou e virou um grito coletivo que tomou a Avenida Paulista e ecoou nas ruas do Brasil. O que há de tão ameaçador nestes 20 centavos, a ponto de fazer com que governos da democracia protagonizem cenas da ditadura, é talvez algo que se acreditava morto por aqui: utopia. A notícia perigosa anunciada pelas ruas, a novidade que o Estado tentou esmagar com os cascos dos cavalos da polícia paulista, é que, enfim, estamos vivos.

A multidão que tomou as ruas de São Paulo, ecoando o que já vinha acontecendo em outras cidades do Brasil, está longe de ser homogênea. Há grupos organizados – e alguns deles acreditam que a depredação é um ato legítimo de defesa, diante da violência sistemática praticada pelo Estado e pelo capital –, há partidos políticos de esquerda e há uma massa de pessoas, a maioria jovens, que aderiram movidas por suas próprias aspirações. O que une “os vários movimentos dentro de um” são os 20 centavos. Mas os 20 centavos deixaram de ser 20 centavos para se tornar expressão de um descontentamento difuso, mas nem por isso menos profundo. Uma decepção com a vida que se vive e um anseio por sentido.

As manifestações de rua são talvez a melhor notícia da democracia, a prova maior de sua vitalidade, mas elas expressam o sentimento de que os políticos que aí estão, os partidos que aí estão, a concepção de mundo, de país e de política que eles representam, já não representam um número crescente de pessoas. Especialmente os jovens pós-internet, mas não só. Contra aquilo que não se entende, mas que ameaça o poder estabelecido, joga-se a polícia. O que se viu na quinta-feira (13/6) foram cenas que lembravam a ditadura militar. Mas as semelhanças acabam aí. A demonstração de força era a expressão de uma fragilidade com a marca deste tempo histórico, do hoje.

A prova mais eloquente, talvez, se revela nas frases postadas pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) no Twitter. Para qualquer pessoa que seguisse o governador e também pessoas que estavam na manifestação, a narrativa simultânea do momento era extremamente reveladora. Reproduzo aqui a sequência de frases de 140 caracteres de Alckmin e frases de diferentes manifestantes ou jornalistas que cobriam a manifestação, postadas ao mesmo tempo que as do governador. Todos estão identificadas com nome e sobrenome no Twitter, mas, depois do que vi na quinta-feira, por precaução, eu prefiro chamá-los aqui apenas de @manifestantes:

“@GeraldoAlckmin O direito à livre manifestação é um princípio basilar da democracia. Assim como o direito de ir e vir e a preservação do patrimônio público/@manifestante: Praça enchendo em paz… bonito/ @GeraldoAlckmin Depredação, violência e obstrução de vias públicas não são aceitáveis. O Governo de São Paulo não vai tolerar vandalismo/@manifestante: Repressão brutal, pessoas desesperadas, moradores com crianças correndo. Se o Haddad compactuar com isso é o fim definitivo do PT!! /@GeraldoAlckmin Participei hoje, em Santos, da comemoração aos 250 anos do nascimento de José Bonifácio Andrada e Silva, o patriarca da independência/@manifestante: Ônibus pegando fogo na Augusta. Milhares correndo, descendo a rua pedindo paz. PM segue com bombas. Motoristas encurralados por gás/@GeraldoAlckmin Ainda em Santos inaugurei nova delegacia de polícia do Porto de Santos, que ano passado recebeu 1.1 milhão de turistas /@manifestante: Tentei sair. Eles atiraram na minha frente. Virei, atiraram atrás. Fiquei cega, entrei num motel. Consegui me recompor/@GeraldoAlckmin No Guarujá inaugurei o novo Hospital Emílio Ribas e anunciei a implantação do Restaurante Bom Prato/@manifestante: Pra dispersar, faz sentido jogar uma bomba no começo, uma no fim? Fiquei presa entre duas bombas de gás. Muita gente machucada/@GeraldoAlckmin Para Cubatão liberamos R$ 21,5 milhões para construir 800 apartamentos e mais 1.448 apartamentos para Santos que receberá mais uma Etec/@manifestante: Eu nunca vi nada parecido. Muita gente ‘refugiada’ no hotel, sangrando/@GeraldoAlckmin Estive também em São Vicente p/ autorizar a recuperação da belíssima Ponte Pênsil, a construção de 1.120 moradias e a implantação da 2ª ETEC/ @manifestante: Augusta em chamas”.
O governador despediu-se no Twitter, na noite que já está assinalada na história de São Paulo, a maior cidade do país, como uma das mais violentas desde a volta da democracia, com a seguinte frase: “@GeraldoAlckmin Parabéns a toda a população de Guaratinguetá pelos 383 anos da cidade. Boa noite a todos!”.

A frase fala por si. A simultaneidade de realidades também. Se alguém quiser documentar essa noite histórica num livro/e-book, a melhor expressão me parece ser a reprodução das narrativas simultâneas do governador e de alguns narradores que estavam na manifestação. O mesmo vale para quem estiver sem tema para uma tese de doutorado. É um retrato do momento, que abre uma rica paleta de possibilidades de análise e de interpretação.

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), não se manifestou diretamente nas redes sociais na noite de quinta-feira. Mas sua ausência, em vários sentidos, esteve bem presente. Tão logo ficou claro que a violência policial era condenada até mesmo por aqueles que antes a haviam pedido em letras garrafais, o prefeito passou a se esforçar para se descolar do governador. Assim como o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que, se hoje critica a ação da polícia paulista, antes de os ventos mudarem tinha se apressado a oferecer apoio “no que for necessário” ao governo de São Paulo. Desta vez, PSDB e PT estiveram unidos pela incompreensão do momento histórico que vivem, atarantados diante da força das ruas e de uma linguagem que não dominam, nem sequer entendem.

Quando Alckmin só consegue enxergar “vândalos” e “baderneiros”, é o que não enxerga que aparece. Quando Haddad tenta se amparar no discurso de que o aumento do preço do transporte público foi abaixo da inflação, é a sua dificuldade de compreender o discurso novo das ruas que se torna explícita. Não é mesmo fácil ser político neste momento histórico em que as ruas nas quais os movimentos se iniciam não têm mais chão. Desorientados diante da novidade, alguns quadros e militantes do PT têm repetido que é preciso resgatar bandeiras históricas do partido que se forjou nas ruas, mas agora se descobre apartado delas. Se isso já se torna cada vez mais difícil, dada as posições retrógradas do governo de Dilma Rousseff, é preciso perceber que essas bandeiras perdidas são do século XX. Ainda que as reivindicações estruturais, de fundo, permaneçam, algumas delas com suas raízes no Brasil Colônia, elas foram acrescidas de novos desafios e nuances e de uma forma inteiramente diferente de se relacionar com o mundo. O que está em jogo hoje são bandeiras do século XXI, em que até o conceito de bandeira já não é mais o mesmo.

A avassaladora velocidade das mudanças nos deixa a todos perplexos. E também a imprensa, que vive um momento delicadíssimo. A cobertura ao vivo das TVs era acompanhada por quem estava no Twitter, mas já com uma leitura crítica. E com a comparação imediata do que era dito pelos apresentadores com a narrativa polifônica, em primeira pessoa, feita pelos manifestantes que estavam no centro dos acontecimentos. Em seguida, o relato de quem testemunhava o protesto nas ruas era comentado e replicado pelos manifestantes que não estavam nas ruas, mas também se manifestavam. E não só em São Paulo, mas no Brasil e também fora do país.

Quem tanto ironiza os “ativistas de sofá” precisa começar a entender que as fronteiras entre as ruas já não existem – ou pelo menos exigem outro tipo de interpretação. Mesmo jornalistas que estavam cobrindo o protesto para seus veículos, fizeram seu relato em tempo real no Twitter e no Facebook – e alguns escreveram artigos independentes depois. Para compreender melhor esse aspecto da manifestação de quinta-feira, sugiro a leitura da ótima análise de Fabio Malini, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e coordenador do Laboratório de Estudos em Internet e Cultura (Labic) – aqui.

Os 20 centavos se alargam, sua teia de significados ganha dimensões cada vez maiores, superando qualquer fronteira física ou virtual. A violência da polícia paulista motivou a reação de outras camadas da população e de outras faixas etárias, levando novas adesões ao movimento. O que se vê nas redes agora é a soma daqueles que dizem ser preciso lutar pela democracia e pela liberdade de protestar. Esse sentimento é demonstrado nas quatro frases do Twitter mais republicadas, segundo a análise do professor Fabio Malini: “@LeoRossatto A tarifa virou a menor das questões agora. Os próximos protestos precisam ser, antes de tudo, pela liberdade de protestar/ @choracuica Não é mais sobre a tarifa. F…-se a tarifa. Isso ficou muito maior que a questão da tarifa/@gaiapassarelli Há algo grande acontecendo e é menos sobre aumento de tarifa e mais sobre tomar posição. Todo mundo deveria prestar atenção/ @tavasconcellos Não é mais uma discussão sobre tarifa. Transporte. Baderna. Sobre nada disso. É sobre o direito de se manifestar por qualquer causa”.

Tenho recebido e-mails de amigos e também de desconhecidos. Edson Natale, músico e produtor cultural, mandou o seguinte texto para o seu mailing, do qual também faço parte: “Vou pra rua na segunda (17/6). E vou porque acho que devo cuidar da rua e porque o Brasil não é só a rua por onde ando. Vou pra rua por minhas crenças e pelas crenças dos filhos: dos meus filhos e dos filhos dos outros. Não é muita coisa ir pra rua, mas não quero perder o direito de ir, quando quiser. Não tenho partido, nem religião, mas acredito sobretudo na vida, nas pessoas e no futuro, por exemplo. Tenho 51 anos e poderei (tentar) ajudar a evitar a violência ou a quebradeira, seja lá de quem for. Estarei lá para mostrar que não tenho gostado dos conchavos, das negociatas, das simulações e das dissimulações que têm acontecido tão intensamente nos bairros, cidades e estados; nas florestas, litorais e sertão, independentemente dos partidos responsáveis por elas. Tenho 51 anos e digo – com maturidade – que é preciso ir para a rua e levar as nossas crenças para passear um pouco e encontrar-se com outras crenças, diferenças e verdades. Acho que é assim que se faz um País e eu tinha me esquecido disso. Por isso agradeço aos que ocuparam as ruas antes de mim e por mim. E antes que alguém diga, ressalto que não vou para a rua defender partidos políticos, violência, quebradeira ou ódio… nem para impor a ‘minha’ verdade. E dessa forma encerro aqui o meu convite: vamos?”.

É possível que seja de qualificação do desejo que esse movimento fale. Talvez seja esta a única coesão entre tantos anseios diferentes, organizados ou não. O sentimento de que essa vida é pouca, de que essa política pautada mais pela reprodução das relações de poder do que por ideias de um Brasil melhor já não motiva ninguém. Em São Paulo, mais do qualquer uma das outras capitais que também se levantaram e se levantam, a questão do transporte explicita todo esse desencanto. É muito simbólico que Alckmin e sua polícia tenham frisado tanto que defendiam “o direito de ir e vir” dos cidadãos, como se cidadãos também não fossem aqueles que se manifestavam. Mas o mais irônico dessa justificativa para a repressão é que “ir e vir” é o que não se consegue fazer em São Paulo, imobilizados em ônibus e carros no trânsito parado, uma oposição já cristalizada na linguagem. Talvez o que una os manifestantes tão diferentes de São Paulo seja o movimento – o ato mesmo de literalmente romper o imobilismo e se mover. A maior transgressão é andar – e por isso era também crucial andar na imensamente simbólica Avenida Paulista. Pessoas, não carros, não ônibus 20 centavos mais caros. Não mais como zumbis sustentando uma vida insustentável em passos claudicantes e limitados, mas como pessoas no movimento desejante em busca de uma vida que faça mais sentido.

Vinte centavos talvez sejam o tanto de morte que uma vida humana já não pode suportar. Em São Paulo, mas também em Porto Alegre, no Rio, em Brasília, em várias cidades e capitais. Assim como em outras partes do mundo – antes, agora, possivelmente depois –, em cada uma delas com contextos, peculiaridades e rostos próprios, mas com algo em comum que é possível reconhecer. Algo que revela de um mundo que apodrece, de um modo de vida que já não dá conta da vida.

Talvez quem melhor tenha sintetizado os protestos que hoje tomam conta do Brasil tenha sido um velho, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, em outro canto do mundo, quase dois anos atrás. Ao falar aos jovens que tomaram as ruas de cidades da Espanha como Barcelona e Madri, ele disse uma frase que se disseminou pela internet, traduzida para várias línguas: “Este mundo de merda está grávido de outro”.

Tomara que esteja. E que tenhamos a grandeza de sonhar com um mundo em que exista espaço para a vida.

Por Eliane Brum
http://revistaepoca.globo.com//Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/06/quanto-valem-20-centavos.html

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