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Para a Fiergs, indústria precisa exportar mais

A Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) e a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) querem uma força-tarefa com governo e setor privado para aumentar a participação de produtos manufaturados na pauta brasileira de exportações. Um manifesto propondo a reindustrialização das vendas externas foi encaminhado nesta quinta-feira pelas duas entidades aos ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), Fernando Pimentel.

Segundo o manifesto, é evidente que o Brasil está se distanciando das grandes potências globais, especialmente no que se refere ao modelo exportador. O documento enviado ao governo federal destaca que, ainda que detenha o sétimo PIB mundial, o País ocupa apenas a 22ª posição no ranking dos exportadores, conforme dados de 2012. Os 14 maiores exportadores mundiais são países primordialmente vendedores de manufaturados, grupo que não inclui o Brasil.

“Até quando será possível manter o atual parque fabril, resistir ao acirramento da concorrência mundial e ao alarmante crescimento das importações estimuladas pela sobrevalorização do real? Torna-se urgente reconhecer a ameaça do modelo atual que, levado às últimas consequências, reduzirá drasticamente o número de consumidores brasileiros, porque estarão desempregados”, alertam a AEB e a Fiergs.

Segundo o presidente da Fiergs, Heitor José Müller, ao longo dos últimos anos, o Brasil perdeu uma importante janela de oportunidade para tornar o processo de exportação menos burocrático e oneroso. “Como resultado, nossos produtos manufaturados vêm perdendo espaço no mercado, sobretudo em função do acirramento da concorrência decorrente da crise internacional. Entendemos que esse é um problema significativo e que requer atenção especial por parte do poder público”, afirmou.

As duas entidades afirmam que não há tempo a perder: é hora de corrigir a redução contínua da participação industrial da pauta exportadora, que alcançava 59% em 2000 e caiu para 37% no ano passado. Como reflexo, a quantidade de empresas exportadoras diminuiu 10% no mesmo período, enquanto houve crescimento de 50% do número de firmas importadoras, que passaram de 28.300 para 42.500, representando mais que o dobro do que as voltadas para as vendas externas. “Temos de recuperar espaços perdidos, sob o risco de perdermos mais espaço”, comentou o presidente da AEB, José Augusto de Castro.

Entre os exemplos de setores cuja participação na pauta caiu consideravelmente, Castro citou calçados, eletroeletrônicos, automóveis e confecções. “São principalmente os setores que utilizam mão de obra intensiva”, acrescentou. “Em vez de gerarmos empregos nos outros países, precisamos de uma agenda de impacto para introduzir a reindustrialização das exportações de manufaturados como fator de alavancagem rápida do desenvolvimento brasileiro a curto prazo, beneficiando a toda a sociedade.”

Fonte: Jornal do Comércio

Inflação faz novos estragos nos balanços das empresas

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Com a inflação em alta, os custos das empresas cresceram mais que as receitas e reduziram os lucros no primeiro trimestre. Após um recuo de 30% em 2012, os ganhos das companhias abertas caíram 12,1% nos primeiros três meses do ano em relação ao mesmo período do ano passado, para R$ 14,4 bilhões. O levantamento, feito pelo Valor Data com base nos dados da consultoria Economática, leva em conta 238 empresas não financeiras. A quantidade de resultados negativos aumentou: 68 empresas fecharam o trimestre com prejuízo, 20% mais do que um ano antes. A amostra exclui os balanços da Petrobras, Vale e Eletrobras, que tendem a distorcer o resultado final.

A perda de rentabilidade explica o tombo na última linha do balanço. A receita subiu 11% no período, para R$ 234,2 bilhões, mostrando que ainda há fôlego considerável da demanda. Mas os custos avançaram 12,6%, representando 71,9% do faturamento, ante 70,9% e 70,7% nos períodos equivalentes de 2012 e 2011.

A safra de balanços do começo do ano deixou claro por que a inflação tem tirado o sono dos empresários brasileiros. Com o avanço dos custos e despesas, transformar as vendas em resultado para os acionistas tem sido uma tarefa cada vez mais complicada. Após um recuo de 30% em 2012, o lucro das companhias abertas caiu 12,1% no primeiro trimestre frente ao mesmo período do ano passado, para R$ 14,4 bilhões. O levantamento, feito pelo Valor Data com base nos dados da consultoria Economática, leva em conta os números de 238 empresas não financeiras.

A quantidade de resultados negativos também aumentou: 68 empresas fecharam o primeiro trimestre no prejuízo, número 20% superior ao registrado um ano antes. Entre as empresas que ficaram no vermelho nos dois períodos, 45% aprofundaram as perdas. Na análise dos dados, o Valor optou pela amostra que exclui Petrobras, Vale e Eletrobras (veja os números com as três empresas na tabela ao lado), já que o tamanho desproporcional das três empresas tende a distorcer o resultado geral.

A perda de rentabilidade explica o tombo na última linha do balanço. A receita avançou 11% em relação aos três primeiros meses de 2012, para R$ 234,2 bilhões, mostrando que ainda há um fôlego considerável da demanda. Os custos, no entanto, cresceram em maior proporção, 12,6%, e passaram a representar 71,9% do faturamento, contra 70,9% e 70,7% nos períodos equivalentes de 2012 e 2011, respectivamente.

O impacto foi ainda maior na linha de despesas operacionais, que subiu 17,8%. A fatia do faturamento restante após esses gastos caiu 1,9 ponto percentual, para 11,9%, e o lucro operacional, antes de juros e impostos, caiu 4,1%, para R$ 27,7 bilhões. O resultado financeiro também pesou. Revertendo a tendência verificada nos últimos trimestres, os gastos com pagamento de juros de dívidas e variação cambial voltaram a subir, com alta expressiva de 29% na comparação anual, para R$ 6,7 bilhões.

Vale ressaltar que, na prática, essas variações tendem a ser até mais acentuadas, por conta de uma mudança na regra de contabilização de joint ventures. Em 2013, o resultado das controladas em regime de associação passou a entrar no balanço pelo método de equivalência patrimonial e não linha a linha no balanço. Nada muda no lucro, mas, em alguns casos, há variações em receita, custos e despesas.

A tendência de queda nas margens de lucro começou a aparecer com mais força na segunda metade de 2011, em meio ao cenário de crescimento econômico fraco e aumento de preços. Neste começo de ano, no entanto, o movimentou respingou até mesmo sobre as empresas de bens de consumo, que até então vinham conseguindo repassar os custos aos consumidores, valendo-se do cenário de desemprego baixo e alta da renda disponível.

O volume de vendas de cerveja da Ambev caiu 8,2% no primeiro trimestre frente ao mesmo período de 2012, sinalizando que o consumidor está mais seletivo na hora das compras. O lucro da companhia ficou praticamente estável, com leve alta de 1,2% na comparação anual. Na mesma linha, o presidente da fabricante de alimentos BRF afirmou que o mercado “está com dificuldades em absorver volumes”.

O presidente da rede de farmácias BR Pharma, André Sá, também disse a investidores que esse foi o trimestre mais desafiador desde a abertura de capital, em junho de 2011. “Março foi o mês que mais sentimos a queda de clientes como reflexo da situação econômica”, afirmou o executivo, que enfrentou um prejuízo de R$ 6,9 milhões nos três primeiros meses do ano.

O desempenho das elétricas também ajudou a puxar o resultado geral para baixo. A forte redução nos preços praticados pelas geradoras que aceitaram antecipar a renovação das concessões e principalmente o salto nos gastos ocasionado pelo acionamento das usinas térmicas derrubaram os ganhos do setor, ainda que os resultados sido menos catastróficos que os antecipados pelo mercado (veja reportagem abaixo).

No geral, no entanto, a temporada de balanços frustrou as expectativas dos investidores, já bastante conservadoras. Cálculos do banco HSBC mostram que os resultados de metade das empresas que compõem o MSCI Brazil – índice utilizado por fundos de investimento passivos – ficaram abaixo do esperado.

Para o ano, as estimativas de lucro médio das empresas que compõem o índice foram reduzidas em cerca de 10%, com recuos concentrados nos setores de materias básicos, saúde e bens de consumo. “Crescimento mais fraco, intervencionismo e custos e inflação em alta são novamente os culpados”, afirmaram os analistas do HSBC, Francisco Machado e Ben Laidler, em relatório.

Fonte: Valor Econômico

Conheça cinco formas de se proteger da inflação

No momento em que fazer o dinheiro render em aplicações financeiras está difícil com a taxa básica de juros (Selic) em patamar baixo, a alta da inflação nos últimos meses tornou a vida do pequeno investidor ainda mais complicada. Nos produtos financeiros mais populares, o investidor está perdendo poder de compra. Descontados custos como taxa de administração e Imposto de Renda (IR), o retorno real neste ano está negativo em 0,62% nos fundos de renda fixa e em 0,52% nos DI. Na prática, isso significa que o dinheiro investido no fim do ano passado compra agora menos produtos e serviços.

Segundo especialistas, existem ao menos cinco opções no mercado para proteger o dinheiro contra a corrosão da alta de preços. São produtos como fundos de inflação e Certificados de Depósito Bancário atrelados ao IPCA (o chamado CDB IPCA), que rendem o índice de preços oficial do país e mais juro prefixado, o cupom. Existem ainda outras opções, que estão se popularizando aos poucos: as debêntures de infraestrutura e fundos imobiliários. Mesmo as ações de empresas que têm facilidade em repassar o aumento de preços podem ser uma arma, como Ambev, BR Malls e CCR.

Bancos pequenos têm cdbs atraentes
Especialistas lembram que mesmo com os recentes sinais de desaceleração da inflação, o IPCA caminha para uma alta de 5,71% neste ano e de 5,76% em 2014, segundo as expectativas do mercado no boletim Focus, do Banco Central.

Segundo o professor de Finanças do Ibmec-Rio Alexandre Espírito Santo, para superar essa inflação, os CDBs IPCA são uma opção porque rendem uma taxa fixa de juros e mais o índice de preços. Esses títulos não são, contudo, encontrados com facilidade em bancos grandes, mas sim nas pequenas instituições. No banco Sofisa, por exemplo, um CDB com vencimento em dois anos remunera o IPCA mais 3,55% ao ano.

— O investidor precisa se informar sobre o tempo que precisará deixar o dinheiro aplicado e sobre os custos de manutenção de contas nesses bancos pequenos, o que pode atrapalhar o rendimento — afirma Espírito Santo.

Os riscos desses produtos estão relacionados à quebra das instituições financeiras, como ocorreu com o Cruzeiro do Sul e BVA. Recentemente, porém, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) elevou de R$ 70 mil para R$ 250 mil o ressarcimento aos clientes de bancos falidos.

Fundo imobiliário tem aluguel reajustado
Outra forma comum de proteção, os fundos de inflação renderam, em média, 11,88% nos últimos 12 meses, um dos melhores retornos da indústria, segundo a Associação Brasileira dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Os fundos são oferecidos pelos principais bancos. O mais acessível é o da Caixa Econômica Federal, com investimento mínimo de R$ 50 e taxa de administração de 2% ao ano. O Banco do Brasil oferece um fundo com aplicação inicial mais alta, de R$ 5 mil, mas com taxa de administração mais competitiva, de 1,5% ao ano.

O administrador de investimentos Fábio Colombo lembra que os investidores que optarem por esses fundos devem encará-los como uma forma de diversificar de olho no longo prazo.

— Como tem uma parte prefixada, esses fundos têm momentos em que ficam com retorno negativo. Pode ser um mau negócio no curto prazo — alerta Colombo.
O investidor José Alves Bento é um dos que buscam vencer a inflação. Ele tem fundos de renda fixa. Para se proteger da inflação, prefere as ações. Ele conta que tem papéis de concessionárias de rodovias, cujas tarifas de pedágio são reajustadas anualmente pela alta de preços.

— O fraco desempenho da Bolsa, com a crise, não garante que vou ter lucro. Mas invisto pensando no longo prazo. E como existe uma tolerância maior com a inflação, é uma opção se proteger no longo prazo — diz José Alves.

Nas aplicações menos populares entre pessoas físicas, debêntures de infraestrutura — títulos de dívida do setor privado— começam a chamar atenção. Com a edição da Lei 12.431, de junho de 2011, os papéis ficaram isentos de IR para aplicadores pessoas físicas. E, o melhor, são obrigatoriamente corrigidos pela inflação.
Segundo Bruno Carvalho, da XP Investimentos, as debêntures têm aplicação mínima a partir de R$ 1 mil e prazo de vencimento de quatro anos ou mais. Ele garante que a liquidez da aplicação tem crescido diariamente.

— O título pode ser vendido antes do vencimento no mercado secundário. Claro que não tem a liquidez das ações de Petrobras e Vale, mas a oferta e a procura têm crescido bastante.

Os fundos de investimento imobiliário, por sua vez, costumam ser indicados contra a inflação porque seu patrimônio — lojas, escritórios, residências — têm contrato de aluguel reajustado pelo IGP-M, índice de preços calculado pela Fundação Getulio Vargas. Esses fundos também não têm IR. É preciso ler o regulamento do fundo para conhecer os riscos e verificar se o emissor do fundos garante a recompra das cotas.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/economia/conheca-cinco-formas-de-se-proteger-da-inflacao-8370730#ixzz2TAUx323Y
© 1996 – 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

A persistência da inflação

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Na visão otimista de Brasília, a inflação, depois de ultrapassar o limite superior da meta (6,5%), com 6,59%, recuará. De fato, mas o 0,55% do IPCA de abril veio acima das previsões, subiu em relação a março (0,47%) e, assim, o índice em 12 meses recuou menos que o esperado, estacionando na fronteira dos 6,49%. O centro da meta, de 4,5%, continua distante, e as melhores expectativas apontam para um índice pouco acima de 5% este ano, ainda alto.

O Banco Central saiu da letargia na última reunião do Copom, elevou os juros básicos (Selic) em 0,25 ponto, para 7,5%, por não desconhecer como a persistência de uma inflação elevada, numa economia ainda bastante indexada, pode deteriorar as expectativas e manter os preços sob pressão.

O momento é cada vez mais de escolhas do governo. É evidente a tentação de manter o mercado de trabalho aquecido com vistas às eleições do ano que vem. Porém, num quadro de quase pleno emprego, o crescimento dos salários acima da produtividade deprime a indústria — o setor deu sinais de vida em março, porém, em relação ao mesmo mês do ano passado, continua com números negativos (retração de 3,3%). Faz com que “vaze” demanda para as importações, ajudando a desequilibrar a balança comercial. E, por paradoxal que seja, isto contribui para mais um “pibinho”.

Além de tudo, impulsiona a inflação nos serviços. Em abril, este item do IPCA subiu 0,54%. Em bases anualizadas, a alta é de 8,13%. Com os salários em ascensão, e sem que haja concorrência externa — não se importam manicures, oficinas etc — , os serviços ostentam razoável fôlego para se tornar mais caros.
Pelo menos até agora, a aposta oficial na redução da pressão vinda dos alimentos ainda não se confirma na dimensão esperada. Há retrações, mas o encarecimento de vários produtos funciona como um anteparo às quedas. Só em abril, por exemplo, a batata inglesa deu um salto de 60,4%.

No saldo final deste surto de inflação são punidas as famílias mais pobres, clássicas vítimas da carestia na alimentação. Aquelas, por ironia, com as quais o governo conta para a reeleição de Dilma.

Diretores do BC têm procurado reafirmar o compromisso da instituição com a defesa do poder aquisitivo da moeda — é o que se espera de um banco central. Justifica-se, porém, o mantra devido ao déficit de credibilidade na autonomia da instituição. A próxima reunião do Copom, na última semana do mês, será novo teste para o BC.
Fica claro que se trata de uma falácia o argumento de que a inflação brasileira foi impulsionada pela quebra de safras americanas e em outras regiões do mundo. Afinal, este impacto inflacionário não se observou nos demais países. As causas são mais internas que externas.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/a-persistencia-da-inflacao-8346036#ixzz2Sz9IzOCI
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PIB e inflação fazem Brasil viver estagflação

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A expectativa de que o País enfrentará mais um ano de baixo crescimento e inflação próxima do teto da meta acendeu o alerta para a trajetória da economia brasileira. Segundo especialistas, o termo estagflação descreve adequadamente o cenário econômico atual, apesar de o fenômeno não se repetir na mesma intensidade que há 40 anos.

Criado na década de 1970, o vocábulo significa a combinação de estagnação da economia com preços em alta. A palavra foi usada para descrever a economia mundial depois do primeiro choque do petróleo, quando o reajuste dos combustíveis provocou a elevação repentina de custos, que fez a inflação aproximar-se de 10% ao ano em alguns países desenvolvidos, e interrompeu o crescimento econômico em todo o mundo.

Para os economistas, a inflação em alta e o crescimento baixo indicam que o modelo de crescimento baseado na expansão do consumo, que impulsionou a economia brasileira nos últimos dez anos, esgotou-se. Segundo eles, o Brasil só conseguirá sair dessa situação se fizer mudanças estruturais que destravem o investimento e aumentem a competitividade do País.

Ex-diretor do Banco Central (BC), Carlos Eduardo de Freitas concorda que o País atravessa um cenário de estagflação. Por um lado, o mercado de trabalho aquecido, com pleno emprego e renda da população em alta, pressiona a inflação. Por outro, a falta de investimentos em infraestrutura e a utilização elevada da capacidade da indústria mostram que a oferta continua estagnada. “Numa economia operando a pleno emprego e com a capacidade instalada totalmente comprometida, não tem como o País crescer muito sem pressionar a inflação”, destaca.

Para Freitas, as estimativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) oficiais e do mercado só estão em torno de 3% neste ano porque já incorporam as projeções de inflação próxima de 6,5% (teto da meta). “Esse nível de crescimento só poderia ser atingido se a indústria tivesse capacidade ociosa. A capacidade de expansão com inflação no centro da meta (4,5%) está em apenas 1%, no máximo 1,5%”, diz.

Professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Robson Gonçalves também acredita que o País passa um período de estagflação desde 2011. “Nos anos 1970, o termo era usado em outro sentido, mas não acho a palavra exagerada para descrever a economia brasileira hoje”, declara. Ele também acredita que o principal entrave para o crescimento não seja a demanda, mas a falta de investimentos, públicos e privados, que melhorem a infraestrutura e aumentem a produção.

Em 2011, o PIB brasileiro cresceu 2,7% e a inflação oficial pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) atingiu 6,5%. No ano passado, o PIB cresceu apenas 0,9%, com inflação de 5,84%. Para este ano, as instituições financeiras projetam crescimento de 3% para a economia e IPCA de 5,68%, segundo o Boletim Focus, pesquisa divulgada pelo Banco Central. A previsão para o PIB, no entanto, pode cair depois do reajuste de 0,25 ponto percentual na taxa Selic.

Na avaliação dos dois especialistas, o governo está lidando de forma errada com o cenário de baixo crescimento e inflação em alta. “Em vez de procurar enfrentar os motivos que travam o investimento, o governo continua a estimular o crédito e a reduzir impostos”, critica Gonçalves. Para ele, a mudança de política econômica dos últimos anos provocou o receio dos empresários de investir. “O governo mexeu nos pilares da política econômica, reduzindo o superávit primário e usando outros instrumentos para controlar a inflação”, acrescenta.

Freitas também cita o aumento da incerteza entre os grandes investidores como o principal fator que tem impedido o crescimento econômico, mesmo com os estímulos dados nos últimos anos, como os financiamentos subsidiados do Bndes e os leilões de concessões de rodovias, ferrovias e aeroportos.

Feijão deve ocupar o lugar do tomate como vilão dos preços

A refeição do dia a dia do brasileiro deverá continuar cara. Após o aumento da salada puxado pela disparada do preço do tomate, será a vez do arroz com feijão pesar no orçamento do consumidor. É que, segundo o economista e sócio-diretor da Global Financial Advisor, Miguel Daoud, o tomate pode sair de cena na pressão inflacionário de hortaliças e verduras, mas o feijão tomará o lugar de vilão da inflação ao longo das próximas semanas. “A inflação de alimentos não vai dar sossego. O preço do feijão já está subindo”, alertou Daoud.

Segundo o especialista, o aumento de preço está ligado ao fato de o governo, via Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), não ter reunido condições para fazer preço mínimo (estocagem) no ano passado. Isso ocorreu porque, segundo ele, o preço do saco de feijão no atacado permaneceu durante todo o ano de 2012 acima do preço do mínimo.

No Paraná (maior produtor de feijão do País), o preço da saca de 30 quilos do grão subiu 25,85%, para R$ 154,66, só no período de 8 a 11 de abril em relação ao acompanhamento da semana anterior, quando a saca era negociada no atacado a R$ 122,89.

Soma-se a isso a informação da própria Conab que, ao divulgar na semana passada o sétimo levantamento de safra do grão, disse que, considerando as três safras do ano, a produção do feijão tende a ser ainda menor nos próximos levantamentos, em virtude do clima chuvoso no Sul do País e de seco no Nordeste. A expectativa é de que a safra 2012/13 poderá chegar a 2,987 milhões de toneladas de feijão, em comparação com 2,919 milhões de toneladas na safra anterior, representando um aumento pequeno de 2,3%.

A questão nem passa pelo peso do produto na composição do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), mas pela capacidade que ele tem de disseminar inflação. O peso dos feijões carioca, mulatinho, preto e fradinho, somados, no IPCA é de 0,43%. Por ser um produto frequente na dieta diária do brasileiro, o feijão tem poder para disseminar inflação por toda a refeição. “Uma inflação desta natureza acaba se espalhando porque atinge o orçamento das pessoas comuns. Quando atinge a população, não adianta nem Mantega e nem Tombini falarem, porque as pessoas comuns não os ouvem”, observou Daoud.

Mercado de trabalho continua aquecido

O mercado de trabalho continua aquecido e pressionando a inflação, disse o economista Rafael Bacciotti, da Tendências Consultoria, ao analisar os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de março, divulgados na semana passada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). “No entanto, a PME (Pesquisa Mensal de Emprego) tem mostrado desaceleração da massa salarial. Os ganhos ainda estão acima da produtividade, mas há redução desse ritmo nos últimos meses”, afirmou.

O saldo líquido de empregos formais criados em março foi de 112.450 vagas, segundo dados do MTE. A indústria de transformação teve o melhor março dos últimos três anos, ao criar 25.790 novas vagas. “Do quarto trimestre de 2012 para cá, já havia a expectativa de melhora do emprego na indústria”, disse Bacciotti.

Ele lembrou que a produção industrial ficou estável na passagem do terceiro para o quarto trimestre de 2012 e que deve haver alta na comparação do quarto trimestre do ano passado com o primeiro trimestre de 2013 – a Tendências projeta avanço de 1%.

Fonte: Jornal do Comércio

Inflação faz Copom elevar Selic a 7,5%, primeira alta desde 2011

Decisão do BC acontece em meio a temor de disparada da inflação. Alta de 0,25 é a menor praticada pelo BC; medida deve encarecer crédito.

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Para tentar conter a inflação elevada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira (17) elevar a taxa de juros de 7,25% para 7,5% ao ano. Trata-se da primeira elevação da Selic desde julho de 2011 – quando a taxa subiu de 12,25% para 12,5%.

A decisão, já esperada por parte dos analistas de mercado, interrompe o período de juros na mínima histórica, que nos últimos meses havia levado ao barateamento do crédito, com consequente aumento do consumo pelas famílias brasileiras. A taxa de 7,25% era o menor patamar histórico da Selic e vigorava desde outubro de 2012.

“O Comitê avalia que o nível elevado da inflação e a dispersão de aumentos de preços, entre outros fatores, contribuem para que a inflação mostre resistência e ensejam uma resposta política monetária”, diz nota divulgada pelo Banco Central na noite desta quarta, após o fim da reunião do Copom, e que justifica a elevação da Selic.

“Por outro lado, o Copom pondera que incertezas internas e, principalmente, externas cercam o cenário prospectivo para a inflação e recomendam que a política monetária seja administrada com cautela”, completa a nota, indicando a explicação para a alta de apenas 0,25 ponto percentual, a menor praticada pelo Banco Central.

A alta dos juros não foi unânime entre os membros do colegiado: foram seis votos a favor e outros dois pela manutenção da taxa em 7,25%. Votaram pela elevação: Alexandre Tombini (presidente do BC), Altamir Lopes, Anthero de Moraes Meirelles, Carlos Hamilton Vasconcelos Araújo, Luiz Edson Feltrim e Sidnei Corrêa Marques. Já pela manutenção em 7,25%, votaram os membros Aldo Luiz Mendes e Luiz Awazu Pereira da Silva.

Inflação

O aumento da Selic ocorre num momento em que cresce o temor de descontrole da inflação em 2013. Na semana passada, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o IPCA acumula alta de 6,59% em 12 meses até março, acima do teto da meta de inflação estabelecida pelo BC para o ano.

Com a alta dos juros, o Banco Central mira justamente a inflação. A decisão deve levar a um encarecimento do crédito, o que deve levar as famílias a frearem o consumo. Com menos compras, a tendência é que o preço dos produtos caia.

Efeito no PIB
Parte dos analistas de mercado, porém, apostava na manutenção da Selic em 7,25% nesta quarta. Isso porque, junto com a inflação, também existe a preocupação do governo em manter a economia aquecida para combater os efeitos da crise internacional.

No ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,9%. Com a alta dos juros nesse momento, a previsão é de que a retomada do crescimento da economia brasileira fique mais difícil – com impacto na criação de empregos e no salário dos trabalhadores.

Sistema de metas de inflação
Pelo sistema de metas que vigora no Brasil, o BC tem de calibrar os juros para atingir as metas pré-estabelecidas, tendo por base o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Ao subir os juros, o BC atua para controlar a inflação e, ao baixá-los, julga, teoricamente, que a inflação está compatível com a meta.

Para 2013 e 2014, a meta central de inflação é de 4,5%, com um intervalo de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Deste modo, o IPCA pode ficar entre 2,5% e 6,5% sem que a meta seja formalmente descumprida.

Rendimento da poupança
A elevação dos juros básicos aumenta a rentabilidade da caderneta de poupança. Pelas regras definidas pelo governo, a poupança passou a ser atrelada aos juros básicos da economia, rendendo 70% da aplicação, mais a Taxa Referencial, quando a taxa básica estiver abaixo de 8,5% ao ano.

Com juros em 7,5% ao ano, a remuneração da poupança sobe de 5,07% para 5,25% ao ano mais TR. Antes da mudança das regras, a poupança rendia, pelo menos, 6,17% ao ano, mais TR. Na poupança, porém, não é cobrada taxa de administração e nem Imposto de Renda (IR) – ao contrário dos investimentos em fundos. Os recursos podem ser sacados a qualquer momento.

Fonte: G1

Maior parte do mercado aposta em alta do juro

juros

Após a recente virada no quadro de apostas para a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), o AE Projeções, serviço especializado da Agência Estado, atualizou sua pesquisa junto aos economistas do mercado financeiro que, agora, passaram, em sua maioria, a esperar elevação da Selic nesta quarta-feira (17). Entre 83 instituições consultadas, 53 delas projetam aumento da taxa básica, enquanto as 30 demais preveem estabilidade, em 7,25%. Do grupo de 53 que conta com um aperto monetário nesta semana, a maioria (33) aguarda elevação de 0,25 ponto porcentual e outros 20 profissionais acreditam em alta de 0,50 ponto. Na quinta-feira passada (11), 63 entre 78 instituições consultadas previam estabilidade do juro em abril.
Mais do que pelos indicadores macroeconômicos, a corrente dos que esperam aumento da Selic foi reforçada nos últimos dias por um efeito manada do mercado, após as declarações do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, na última sexta-feira.

O presidente do Banco Central, em evento no Rio, declarou que “não há nem haverá tolerância com a inflação”. “Estamos neste momento monitorando atentamente todos os indicadores e, obviamente, no futuro, vamos tomar decisões sobre o melhor curso para a política monetária”, afirmou. No mesmo dia, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse, em entrevista exclusiva ao Broadcast que, se for preciso elevar os juros, “não é um necessário um tiro de canhão, pode ser de metralhadora”.

E a presidente Dilma endossou o coro ontem (15). “Não fazemos concessão à inflação e sempre combatemos e combateremos a inflação, principalmente pelo mal que causa para trabalhadores e empresários. Corrói as rendas. Não abriremos mão desse controle”, afirmou, durante seminário sobre os dez anos de governo do PT no País. Hoje (16), afirmou ainda que “qualquer necessidade de combate à inflação” poderá ser feita em um patamar de juro bem menor do que o já vivido no Brasil em épocas anteriores.

Boa parte do mercado entendeu as palavras do governo como um recado claro de que a Selic vai subir em abril. Para o HSBC, que trabalha com um aumento de 0,50 ponto, “Tombini usou exatamente a mesma linguagem que o Banco Central usou em ocasiões anteriores para sinalizar aos investidores que o começo de um ciclo de aperto era iminente”, segundo relatório do banco.

Especificamente, a expressão monitorando “atentamente” foi utilizada antes dos últimos dois ciclos de aperto, complementaram os economistas.

A INVX Global já esperava alta de 0,25 ponto porcentual para o juro básico em abril, embora admita que se o Comitê colocar a taxa em 7,75% não será surpresa. “A melhor estratégia seria iniciar o processo com pelo menos 0,25 ponto porcentual, mas consideramos a possibilidade do ajuste para 7,75%. Estimamos que o nível da Selic teria que atingir uma taxa na faixa de 8,75% a 9,0% até o final deste ano para manter uma trajetória de inflação decrescente em relação ao ano anterior, beneficiando a convergência do IPCA para a trajetória de metas sob a ótica de médio prazo”, comentou o economista-chefe Eduardo Velho.

A dúvida, na sua visão, é “se o governo vai priorizar um combate agressivo na inflação com aperto monetário e fiscal ao custo de elevação da taxa de desemprego às vésperas da eleição presidencial”.

Na outra ponta, a Concórdia Corretora manteve-se na ala dos menos conservadores, preservando sua projeção de Selic inalterada em 7,25% nesta reunião. Conforme explicou o economista Flávio Combat, a previsão tem por base “a trajetória vacilante” dos dados de atividade e a expectativa de desaceleração dos preços. “Ainda que o IPCA em 12 meses esteja acima da meta, há perspectiva de descompressão da inflação”, disse.

Além disso, afirma Combat, o BC não abandonou o termo “cautela” na última ata, referindo-se à eventuais mudanças na condução da política monetária. “Os sinais são mais de postergação do início do ciclo do que de aperto agora”, avaliou o economista, que acredita que a Selic começará a subir em maio e que o processo incluirá um total de três altas consecutivas de 0,50 ponto.

Para Combat, “é possível que haja dissidência” no placar de votação, o que funcionaria como uma sinalização de que a intenção é ajustar a taxa no próximo encontro. Se confirmada sua expectativa de manutenção nos juros, o economista afirma que o comunicado deve dar ênfase na questão da atividade, “até pelo IBC-Br divulgado pelo próprio BC na sexta-feira”. O IBC-Br recuou 0,52% em fevereiro ante janeiro, com ajuste sazonal.

Fonte: Agência Estado

É urgente mais investimento na infraestrutura

Que o Brasil precisa de investimentos para crescer pelo menos 3% em 2013 ninguém mais tem dúvidas. Nesta quarta-feira, as instituições consultadas pela pesquisa Focus, do Banco Central, esperavam a manutenção da taxa Selic em 7,25%, mas há novas apostas em alta, feitas nesta terça-feira. Há o temor da “inflação do tomate” rondando, como antes houve a do chuchu. No entanto, é triste saber que, agora, é mais fácil levar milho para a China do que para Recife. É que enquanto o Nordeste vê parte de seu rebanho ser aniquilada por falta de comida, numa das piores secas da região, o Brasil se transforma no maior exportador de milho do mundo. A situação, um contrassenso, é mais um efeito devastador do caos logístico que assola o País. Produto há, o que não tem é transporte para levar o milho do Centro-Oeste para o Nordeste. Apesar dos congestionamentos nos portos, tem sido mais fácil atravessar 17 mil km de oceano até a China do que transpor 3,5 mil km entre Sorriso, no Mato Grosso, e Recife, em Pernambuco. Com a safra de soja à plena carga e estradas em péssimas condições, os caminhoneiros se recusam a levar o milho até as cidades nordestinas. Quando raramente aceitam, o preço do frete dobra o valor do produto.

Uma das justificativas, além das deficiências da malha rodoviária, é que, no transporte até os portos, o caminhão vai com soja e volta com fertilizantes, por exemplo. Para o Nordeste, além de gastar entre oito e 10 dias, dependendo da cidade, de viagem, a carreta sobe cheia, com milho, e volta vazia. Junta-se a isso a nova lei dos caminhoneiros, que reduziu a carga horária dos profissionais e diminuiu a frota de veículos disponível para o transporte. Para tentar resolver o problema no Nordeste, a Conab, do Ministério da Agricultura, decidiu fazer três leilões para aquisição do produto, com cláusulas que obrigam o vendedor a entregar o produto na região. No primeiro, realizado no fim de março, o governo comprou 50 mil toneladas de milho por R$ 43,00 a saca – em Campinas, uma das referências nacionais, o preço é de R$ 25,00.

Durante anos, o Nordeste foi abastecido pela importação de milho da Argentina, de 15 em 15 dias. A partir de 1995, a compra foi suspensa, e os produtores passaram a adquirir milho do Centro-Oeste. Em 2007, essa parceria terminou. Hoje, o Brasil tem estoque de milho que não consegue fazer chegar a quem precisa, uma estupidez causada pela falta crônica de investimentos na infraestrutura. No Rio Grande do Sul, como bem lembrou o presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), Heitor Müller, a indústria local só será competitiva se o governo aumentar os investimentos em infraestrutura, usando também dinheiro privado. Segundo o líder, os governos gaúchos demonstraram que não têm verbas para fazer o que precisa ser feito e logo. Os governadores sabem que investimentos são necessários, mas não têm condições financeiras. Antes de se expandirem, as empresas privadas gaúchas necessitam de apoio emergencial para sobreviver. Então, temos o Custo-Brasil e o novo “custo gaúcho”, fruto de anos e anos de falta de recursos para investir em tudo o que é básico na logística estadual.

Fonte: Jornal do Comércio

Inflação não precisa de tiro de canhão

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Na iminência de uma retomada do ciclo de alta de juros, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou ao Estado que a inflação não vai precisar ser debelada com um “tiro de canhão” como na história recente do País. “Pode ser de metralhadora, se necessário”, disse. Ele frisou que não estava opinando sobre a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que começa na terça-feira, mas sobre uma mudança estrutural nos juros.

Mantega afirma que a inflação está sob controle e que “o que está na boca do povo é o tomate” e não uma alta generalizada de preços. Um dos principais defensores do câmbio desvalorizado, o ministro admite que o governo promoveu uma depreciação do real, que elevou em até 0,5 ponto porcentual o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Para o ministro, a principal meta do governo Dilma, que é transformar os investimentos na mola propulsora da economia, será atingida no ano eleitoral. “Os investimentos vão bombar em 2014″, diz. Abaixo, a entrevista realizada na sede do Banco do Brasil, em São Paulo.

A inflação voltou a ser uma preocupação do brasileiro e o IPCA estourou o teto da meta em março. Não é um sinal ruim?

O que está na boca do povo é o tomate, não a inflação. O comportamento dos preços neste começo de ano tem sido parecido com o dos últimos oito anos. Tivemos choques nos preços das commodities, o que não nos deixa tristes, já que somos grandes exportadores de produtos básicos, mas é claro que há reflexo na inflação. No ano passado, tivemos nos Estados Unidos e no Brasil uma seca. Além disso, fizemos uma desvalorização cambial, que também é inflacionária, tendo efeito de algo como 0,4 ou 0,5 ponto porcentual no IPCA. Se somarmos as coisas, veremos que a inflação recente não é uma questão estrutural, mas pontual. O sistema de metas de inflação foi pensado para absorver essas excepcionalidades, e é por isso que estamos há oito anos com inflação dentro da meta. E vamos cumprir a meta neste ano.

O governo reduziu a conta de luz, desonerou a cesta básica e postergou os reajustes de transporte público. Mesmo assim…

Tivemos duas secas, nos Estados Unidos e no Brasil, e a mudança cambial, que interferiram neste ano. Todo ano tem algum vilão, que já foi o feijão, a carne, e agora é o tomate. A produção agrícola foi negativa no ano passado, e essa foi uma das razões por trás do PIB de 2012.

Além da pressão dos alimentos, a inflação tem sido puxada pelos serviços.

De fato. Essa alta nos preços dos serviços ocorre por conta do bom momento. A massa salarial está subindo, portanto, o poder aquisitivo da população aumenta. No caso dos bens industriais, se o produtor nacional aumenta o preço, o consumidor compra o importado. Mas com os serviços isso não é possível. Com o tempo, a concorrência se implanta, porque, se o corte de cabelo começa a ficar muito caro, logo alguém aparece fazendo o mesmo e cobrando menos. Mas, em março, os serviços não foram os vilões.

Sempre que o governo precisou reduzir a inflação, o PIB estava forte. Este não é o caso agora. O que fazer?

Temos de buscar o aumento da oferta, com as medidas de desoneração tributária e o Plano Safra que estamos fazendo.

E quanto ao aumento da taxa básica de juros?

Quem falou em elevar a Selic?

O sr. disse (na sexta-feira de manhã) que o governo poderia tomar medidas impopulares para debelar a inflação. Uma alta da Selic não prejudica o PIB?

Na véspera do Copom, não me manifesto sobre juros, essa é uma questão para o Banco Central. O que me interessa é o juro de longo prazo, que serve para estimular os investimentos.

A tendência agora é ter oscilações nos juros num patamar mais baixo?

Não há necessidade de voltar (para o patamar anterior de juros), porque a política monetária está mais eficiente e a economia já desindexou um pouco. Temos um patamar de juro um pouco maior que em outros países, por conta de um resquício inflacionário do passado. Há uma desindexação em curso, mas não é imediata. Além disso, a política monetária se tornou mais eficaz. O Brasil é um País mais normal hoje. Isso significa que, se precisar (subir os juros), não é necessário um tiro de canhão. Pode ser um tiro de metralhadora.

Alguns economistas defendem alta do desemprego para reduzir a inflação. Isso é inevitável?

Não vamos jogar fora o maior avanço recente, que é não ter desempregados. Esse problema do aumento do custo da mão de obra tem de ser enfrentado com velocidade na qualificação da mão de obra. Até, se for o caso, deveria vir mão de obra de fora para essa transição. Também rebatemos essa questão com a desoneração da folha, que contrabalança o aumento do salário real em condições de pleno emprego. Nos países com desemprego alto, o salário é mais baixo, mas não tem mercado. Qual é a vantagem? Acho um absurdo pensar que isso é uma vantagem. A população está muito satisfeita.

O governo anunciou concessão de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos, mas os empresários pediram uma taxa de retorno mais atraente. O sr. já decidiu isso?

De fato, esse programa é fundamental para estimular os investimentos e aumentar a competitividade da economia. Isso é prioridade para o governo. Mas o programa só será bem-sucedido se apresentar uma rentabilidade que convide o investidor. No caso dos leilões de petróleo e gás, que faremos no mês que vem, a demanda é garantida, já temos 35 empresas inscritas. No caso das rodovias, nós começamos com duas, a BR 040 e a BR 116, cujos estudos para a concessão estavam velhos, tinham sido feitos em 2007. Nós revisamos todos os parâmetros. Aumentamos o prazo de concessão de 25 para 30 anos, reduzimos as taxas de juro, ampliamos o tempo de carência para começar a pagar, mudamos a posição dos pedágios, tudo para tornar o negócio mais rentável. Agora eu garanto que o investidor terá um retorno real, ou seja, descontada a inflação, de 10% ao ano.

Então a taxa de retorno original, de 5,5% ao ano, foi superada?

Exatamente. A taxa de retorno do projeto vai aumentar também, mas para o investidor um ganho real de 10% ao ano está garantido. Nosso interesse é que essas concessões sejam bem sucedidas, que saiam do papel. Onde você consegue um retorno real de 10% ao ano num prazo de 30 anos? Não há alternativa de rendimento parecido com esse no mundo. O capital estrangeiro virá para cá.

E a Petrobrás? Vai ter condições de investir?

A Petrobrás investiu R$ 84 bilhões no ano passado. Este ano, a programação é de R$ 97 bilhões. A Petrobrás dará a sua contribuição plenamente.

A Petrobrás ainda precisa de mais um reajuste no preço da gasolina para recuperar a capacidade de investimento?

Eu não sei, perguntem para a Petrobrás.

O sr. é o presidente do conselho de administração.

Aqui estou dando entrevista como presidente do conselho? Não sabia (risos). Falo aqui como ministro da Fazenda.

O governo baixou 15 pacotes nos últimos tempos para reanimar a economia.

Não baixamos nenhum pacote. Está certo que fizemos hora extra no ano passado (risos). Mas é preciso distinguir medidas estruturais de emergenciais. Desoneração não é pacote, é permanente. Existem medidas que são para ajustar imediatamente a economia. Às vezes, o setor automobilístico começa a cair e, antes que desempregue, diminuímos o IPI.

Os críticos dizem que esse intervencionismo deixa os empresários mais reticentes em investir. Como o sr. Responde?

A pior coisa é ficar inerte, assistindo uma economia se degringolar. Não posso pensar: ‘Oh, que beleza, está valorizando o câmbio’, ou ‘Oh, que beleza, deixa o pessoal fazer arbitragem’. Aí explode a indústria. Se não tivéssemos tomado essas medidas para o setor automotivo, seríamos engolidos pelos importadores. Nas crises passadas, a indústria e o comércio eram destruídos e havia desemprego em massa. Nada disso aconteceu desta vez. A indústria cai uma hora, depois sobe, mas é assim mesmo. Agora serão necessárias menos medidas. O que vai continuar é o programa de desoneração. Todo mundo sabe e todo mundo quer. Vamos ter também a reforma do PIS/Cofins.

Como vai ser exatamente a reforma do PIS/Cofins?

O PIS/Cofins é muito complexo, cheio de alíquotas diferenciadas e especiais. Só o regime dos tributos têm mil páginas. Vamos simplificar. E temos de permitir o aproveitamento dos créditos. Mas nós não temos dinheiro para fazer isso em 2013. Podemos até anunciar este ano, mas para valer em 2014. Em 2013, o mais importante é a reforma do ICMS, que está sendo discutida no Congresso.

Por que mesmo com as medidas, o PIB não reagiu?

O que nos pegou de surpresa foi o agravamento da crise europeia, e as medidas que tomamos ainda vão levar um tempo para surtir efeito. Você reduz os juros e ele tem efeito dali a dez meses. Não vamos esquecer que o juro vinha caindo lentamente e só foi atingir o atual patamar de 7,25% ao ano em outubro do ano passado. Há um paradoxo na economia brasileira no caso dos juros e do câmbio.

Como assim?

Vivemos muito tempo com juros altos, e a economia ficou viciada. Mesmo o setor produtivo tem uma parte do seu rendimento que é atrelado ao mercado financeiro, como uma forma de se defender. Mesmo as empresas que passaram a vida toda pedindo para cortar o juro, perdem, num primeiro momento, quando isso acontece. Com o câmbio, a lógica é a mesma, porque o setor produtivo tem empréstimos em dólar e compra máquinas e equipamentos importados. Isso só ocorre neste primeiro momento, depois há a adaptação. A economia está num momento de transição. Um programa de infraestrutura, como o que lançamos em 2012, demora a ter efeito. O investimento vai começar a bombar mesmo em 2014.

É preciso ter paciência?

Vamos lembrar que as desonerações começaram em 2012, e estão em curso ainda. Não se transforma um país do dia para a noite. Esse ano nós vamos crescer mais. As projeções do mercado são de um avanço de 3% a 3,5% do PIB.

Qual é a sua projeção de crescimento do PIB?

Estou só observando as projeções para depois vocês não ficarem me cobrando (risos).

Em 2011, o governo Dilma apertou a política fiscal e soltou a monetária. Em 2012, a Fazenda aumentou as desonerações. Qual é a política fiscal de 2013?

É a mesma. Sou ministro da Fazenda há sete anos e pratico sempre a mesma política fiscal: séria, sólida, porém anticíclica A novidade agora é a desoneração. Não estou gastando, mas devolvendo ao contribuinte ou deixando de cobrar um tributo. Mantemos o superávit primário, porque quando o PIB crescer, vamos fazer o superávit cheio. Mas enquanto a economia está mais fraca, é preciso tomar medidas, com mais gastos em investimentos e em subsídios. Os gastos de custeio do Estado estão sob controle.

As contas externas estão se deteriorando. Há riscos para o País?

Tivemos uma contração do comércio internacional no ano passado. Em 2013, aumentaram as importações de bens de capital, mas ainda não sabemos qual vai ser o comportamento das exportações. Talvez o mercado internacional melhore. É cedo para prognósticos. Não temos nenhuma dificuldade com fluxo de capital externo. Nos últimos anos, nós inibimos o capital internacional. Se quisermos, é só eliminar as dificuldades que o capital vem.

A importação de combustível cresceu muito, por conta da política do governo de reduzir o IPI para a venda de carros. Como quebrar esse ciclo?

A produção de etanol vai ser melhor este ano. Começamos a dar estímulos e vamos lançar mais medidas para o setor. O reajuste da gasolina já tornou o etanol mais competitivo. Temos a previsão de elevar a mistura de etanol na gasolina para 25% a partir de 1.º de maio. Teve um período em que o setor ficou meio parado, porque foi muito afetado pela crise mundial de 2008 e pelos preços dos combustíveis. Mas já está se recuperando e vamos tomar mais medidas para que o setor sucroalcooleiro volte a investir e expandir sua produção.

Fonte: Estado de S. Paulo

Alimentos apresentam deflação no mundo, mas sobem no Brasil

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Considerado um dos celeiros do mundo, o Brasil tem vivido uma situação inusitada nos últimos meses. Enquanto os alimentos ficaram mais baratos no exterior desde o ano passado, o preço da comida brasileira está na contramão e sobe sem parar há 19 meses.

Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) mostram que, globalmente, os alimentos têm queda consecutiva desde outubro de 2012 e acumulam deflação de 2,6% no período. No Brasil, ao contrário, os preços ao consumidor subiram 5,5%.

Com a economia global ainda tentando sair da crise, a demanda por commodities segue aquém do esperado pelos analistas, especialmente em grãos – segmento em que o Brasil é um forte exportador. Com as estimativas frustradas, os preços internacionais engataram a tendência de queda.

Levantamento feito com dados da FAO revela que a economia global vive, atualmente, a maior sequência de quedas do índice de preços de alimentos desde o estouro da crise financeira, no fim de 2008. Esse índice é medido pela FAO conforme a evolução mensal de uma cesta de 55 preços de alimentos de origem vegetal e animal em cinco categorias: açúcar, carnes, cereais, lácteos e oleaginosos.

O Brasil, porém, não sentiu essa recente virada dos preços. Na mesa do consumidor brasileiro, ao contrário, nada mudou e a inflação segue firme a tendência de alta. Ou seja, a queda dos preços internacionais – verificada nas commodities como soja, milho, café e carnes – ficou em algum lugar até chegar à casa do consumidor.

Dados do IBGE mostram que os preços do grupo alimentação e bebidas sobem todos os meses desde agosto de 2011, conforme a série dessazonalizada. Nesse período, a inflação da comida avançou nada desprezíveis 16,5% ou mais de três vezes a meta de inflação perseguida pelo Banco Central.

Os dois últimos meses do IPCA – parâmetro oficial no Brasil para a evolução dos juros -, inclusive, revelam que a remarcação voltou a ganhar força e a inflação de alimentos e bebidas foi de 1,63% em janeiro e 1,52% em fevereiro. Nos 12 meses acumulados até fevereiro, o grupo alimentação e bebidas do IPCA dessazonalizado acumula alta de 11,7%, a maior desde novembro de 2008 – logo após a quebra do banco americano Lehman Brothers. Na medição internacional de preços de alimentos feita pela FAO, o mesmo período acumulou deflação de 2,24%.

Na opinião de analistas, os preços dos alimentos ao consumidor não caem no Brasil porque o setor ainda carregaria o efeito dos problemas climáticos do ano passado. O ambiente de consumo doméstico é contrário ao externo e é favorável ao aumento de preços. Já o atacado registra recuo de preços desde o início do ano.

A economista para América Latina do britânico Royal Scotland Bank (RBS), Flavia Cattan-Naslausky, classifica como elevada a pressão observada no grupo de alimentação e bebidas do IPCA, que acumula alta de mais de 11% em 12 meses. Parte dessa alta ainda é resultado dos choques de oferta observados no ano passado – quando parte da produção agrícola brasileira foi prejudicada por problemas climáticos.

A inflação agrícola no atacado começou a arrefecer no início do ano. Na segunda prévia do IGP-M de março, os preços agrícolas caíram 0,38% no atacado. Em igual período de fevereiro, a deflação foi de 1,3% também no atacado. Pelo menos no preço oferecido pelo fornecedor, a queda dos preços internacionais chegou ao Brasil.

Essa deflação deve ser sentida pelos consumidores em algum momento. Flavia diz que a desaceleração tende a ser limitada. “Dado o nível de preços dos itens não administrados (que continuam subindo), o impacto positivo será limitado”, diz.

Fonte: Jornal do Comércio

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