Movimentos sociais pela Internet

Em pleno século XXI, a força que as novas tecnologias da informação e comunicação, representadas sobretudo pela democratização da Internet, concederam às minorias ideológica e politicamente descontentes é algo jamais visto. Exemplo disso são os inúmeros protestos que, nas últimas semanas, vêm ocorrendo Brasil afora. Iniciado em São Paulo, forte descontentamento para com a qualidade e o aumento do valor da passagem do transporte urbano, de R$ 3,00 para R$ 3,20, o movimento, que passou a conjugar novas causas — a exemplo do combate à corrupção e a reprovação dos elevados gastos que envolveram a construção das obras da Copa das Confederações e do Mundo — fizeram do dia 17/6/2013 um marco para nossa história.

Em se concordando ou não com o teor do que se arguiu, o fato é que esses acontecimentos representam uma significativa mudança no pensamento das massas que compõem o povo, destinatário fundamental de todo e qualquer sistema democrático. Essas ações voltadas ao questionamento e posicionamento contra-hegemônico das relações sociais e políticas que vêm ocorrendo mundo afora apontam, sem dúvida, para a necessidade de descentralização e flexibilização do atual modelo de democracia representativa, uma democracia falsamente ativa, “de fachada” ou “de sofá”. Na contemporaneidade, mais do que claro que o monopólio da informação vem, da aurora ao crepúsculo, tornando a velha pseudorrepresentação política impraticável. Conforme dados veiculados pelo Instituto Datafolha, em 18/6/2013, 71% dos presentes em meio aos protestos ocorridos no dia anterior o faziam pela primeira vez, sendo em sua maioria compostos por indivíduos de idade entre 26 a 35 anos. Outro interessante apontamento é que, do total de manifestantes nas ruas, 81% deles souberam da mobilização por meio do Facebook, enquanto que 85% procuraram informações na Internet.

Ao que se vê, a sociedade não age apenas sob a bandeira de um modelo cidadão e democrático efetivo, mas, sobretudo, parece ter, finalmente, despertado para a assunção de seu papel articulador fundamental da mudança que se quer ver. Como já dizia Giddens, lá em 2003, em sua obra “Mundo em Descontrole: o Que aGlo balização Está Fazendo de Nós”, pág. 82-83: “A revolução das comunicações produziu mais conjuntos conscientes de cidadãos do que havia antes. São exatamente esses desenvolvimentos

que estão, ao mesmo tempo, produzindo descontentamentos nas democracias há muito estabelecidas. Nu m momento marcado pelo declínio das tradições, os políticos não podem contar com as velhas formas da pompa e circunstância para justificar o que fazem. A política parlamentar ortodoxa fica distanciada da torrente de mudanças que passa impetuosamente pela vida das pessoas”.

Fonte: Correio do Povo | WAGNER A. H. POMPÉO

O RECADO DOS JOVENS

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A história está repleta de datas que sintetizam espíritos e épocas. Sem esperar pelo veredicto da posteridade, já é possível afirmar que o 17 de Junho é o retrato de um novo Brasil. O país que foi para as ruas protestar na segunda-feira reflete um novo estado de ânimo de uma ampla parcela da população: rejeição à corrupção e ao descaso com a coisa pública, desconfiança de governantes e partidos, indignação com a desproporção entre os gastos com grandes eventos, por um lado, e com saúde, educação e transporte, por outro. O país que tomou praças e avenidas sente os efeitos da alta de preços de alimentos e serviços. A nação que tomou a palavra antevê, para além dos sinais incipientes de turbulência econômica, os percalços de um futuro que parece menos auspicioso do que há alguns anos. Sua voz ergue-se também contra governos, parlamentares, corporações e meios de comunicação. Pode-se saudar ou rejeitar a emergência desse Brasil do 17 de Junho. Mas não se pode ignorá-lo.

É utópico imaginar que dezenas de milhares de pessoas decidam se manifestar por fora dos canais até hoje existentes no interior do Estado de direito, por meio de ida massiva às ruas, sem que isso implique riscos para a segurança e até mesmo distúrbios isolados. É preciso separar a manifestação legítima e democrática da maioria das depredações, incêndios e pichações promovidos por uma ínfima minoria oportunista. Toda sorte de vandalismo pode e deve ser investigada, e os envolvidos, enquadrados criminalmente na forma da lei. O fato de tais atitudes terem prosperado nos primeiros dias do movimento reflete o fato de não haver objetivos, líderes e organização claras.

O mais importante é que a nação seja capaz de retirar ensinamentos dos acontecimentos. Em síntese, os jovens nas ruas estão enviando um recado para toda a sociedade, incluindo governantes, políticos, empresários e imprensa. O sentimento da maioria é, como bem sublinhou a presidente Dilma Rousseff ao citar o cartaz “Desculpem o transtorno, estamos mudando o Brasil”, carregado de civismo e boas intenções. É positivo que milhões de pessoas com menos de 30 anos estejam se dispondo a assumir um papel de protagonistas na história. Trata-se de uma geração que jamais viveu períodos de exceção ou de cerceamento de liberdades. Para o bem do país, esse aprendizado deve ocorrer de forma serena. A sociedade tem de saudar e acolher esse verdadeiro despertar jovem, zelando para que fortaleça o Estado democrático de direito. Não resta dúvida de que todos seremos testemunhas dos reflexos concretos do que está acontecendo hoje daqui a pouco mais de um ano, nas eleições presidenciais de 2014. É desejável que a experiência histórica de cada geração se reflita na participação eleitoral por meio do embate entre ideias, programas e concepções.

Fonte: ZH | Editorial

Motivos para dizer não

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Tenho usado todos os meus escassos neurônios para compreender os protestos dos estudantes. Vamos lá. Penso melhor me questionando. Perguntando, por exemplo:

O que é líquido e indiscutível?

Resposta: que os protestos são legítimos.

Sim, são. Se as pessoas se sentem injustiçadas, têm de protestar. O que não significa, evidentemente, que estejam de fato sendo injustiçadas. Mas legítimos, são; disso não há quem discorde.

Outro ponto indiscutível: as pessoas estão descontentes. Óbvio, ou não protestariam.

Com o que estão descontentes? Quais as razões dos protestos?

Aí complicou.

As manifestações foram desencadeadas devido ao preço das passagens dos ônibus e já desaguaram na corrupção, nos gastos com a Copa e nas deficiências de educação, saúde e custo de vida. Tudo que se sabe que está errado no Brasil.

Eles reclamam de tudo, pois. Um problema. Quem reclama de tudo, não ganha nada. O tudo é o mais próximo que existe do nada.

Talvez encontre uma resposta se tomar as queixas pontualmente.

Vamos lá de novo.

Intriga que as manifestações começaram com questões de transporte e, logo em seguida, de saúde. Bem. Sabe-se que nunca tanta gente comprou carro, no Brasil, como nos últimos anos. Da mesma forma, nunca tanta gente adquiriu planos de saúde.

As ruas ficaram engarrafadas e os planos de saúde não conseguem mais atender a demanda. O que incomoda quem já tinha carro e plano de saúde, mas será que incomoda quem não tinha, a ponto de sair à rua para protestar? Duvido.

É um protesto de quem já tinha, portanto. O que não lhe rouba a legitimidade, nem a justiça. Quem tem pode protestar tanto quanto quem não tem.

E os gastos com a Copa? E os estádios que foram construídos em cidades de quase nenhum futebol, como Brasília e Manaus? Uma boa causa, mas por que ninguém protestou quando os estádios estavam sendo erguidos do chão? Agora o dinheiro já está gasto…

Há uma confusão de causas. Quais serão as consequências?

A corrupção não vai acabar por causa disso. Corrupção não acaba por deliberação política. Nem vão melhorar a educação ou a saúde. E a Copa do Mundo será realizada, decerto que sim.

O que vai acontecer, então?

O governo será atingido, isso é outro ponto indiscutível. O PT talvez perca votos e Dilma talvez não seja reeleita. O próximo presidente pode ser do PSDB ou do PP ou do PSTU, sabe-se lá.

Mas isso, realmente, não importa.

O que importa, nos protestos, não são suas causas difusas nem suas consequências vagas. O que importa, nos protestos, são os protestos.

Há 20 anos os jovens não protestavam. Há 20 anos, ajudaram a derrubar um presidente da República. Era uma causa bem identificável. De 20 anos para cá, a moeda se estabilizou, o desemprego diminuiu, dezenas de milhões ascenderam de classe social, os brasileiros elegeram um sociólogo, um operário e uma mulher.

Ainda há muita coisa errada? Sim! Mas isso não interessa. O que interessa é que o jovem de hoje saiu à rua e está participando de algo grandioso, algo que quebra a cabeça da polícia e picha a parede do palácio, algo que é contra, seja lá contra o que for. Não importa, o que importa é dizer não.

O jovem diz não e se orgulha de dizer não, mesmo que não saiba exatamente para o que está dizendo não. Daqui a 20 anos ele verá as fotos e os filmes dos movimentos de agora, e inflará o peito ao contar que estava lá.

– Eu estava lá. Eu disse não – dirá para seu filho.

E o filho dele vai admirá-lo e vai também sentir vontade de sair à rua e, por algum motivo, qualquer motivo, gritar: não!

Fonte: ZH | David Coimbra

Pacto federativo: trocando em miúdos

A discussão do pacto federativo pressupõe que compreender melhor a sua essência e a importância dessa pauta é estratégico para dar um novo impulso ao desenvolvimento do País. Trata-se de algo menos complexo do que parece. O pacto federativo define as funções de cada ente federado (União, estados e municípios), ou seja, quem faz o que e de onde sai o dinheiro. Nas últimas décadas, o Brasil foi constituindo um sistema que centralizou a maior parte do bolo tributário na União – e pulverizou responsabilidades. Em 1988, a União repassava a estados e municípios 88% de tudo o que arrecadava. Hoje, apenas 36%. O resultado é conhecido há um bom tempo: muito recurso e muito poder com o governo federal; pouco recurso e pouco poder com estados e municípios. Consequência: estados endividados e municípios atados a emendas parlamentares e favores políticos.

Esse emaranhado ainda envolve sobreposição de função em algumas áreas, enquanto noutras há ausência da ação pública. Os tributos, sempre arrecadados na base municipal, fazem o percurso até Brasília, retornando depois como uma espécie de benevolência. Para além da contradição política, esse sistema favorece o desvio do dinheiro público e todas as formas de corrupção. Há também uma nova dinâmica de gestão que precisa ser contemplada: é a própria comunidade quem tem mais capacidade de avaliar as alternativas. As cidades sabem melhor sobre elas mesmas – simples assim. Muito melhor do que gabinetes distantes.

É preciso ter coragem para enfrentar esse debate, que pressupõe questionar o peso da caneta da administração pública federal, delegando funções e verbas para uma aplicação mais justa e adequada. Significa abdicar de certo glamour político em nome de soluções reais e mais rápidas dos problemas da população. Trocando em miúdos: essa atualização vai prestigiar as pessoas através de resultados mais imediatos e eficientes. E são elas, as pessoas, o principal componente da Federação. É disso que falamos quando o assunto é pacto federativo.

Por Deputado Federal Beto Albuquerque

Choro dos perdedores

Em 27/01/2013, uma tragédia, que ao longo dos dias iria deixar 242 mortos e centenas de feridos, assolou Santa Maria. No exato instante em que o fogo se alastrou na espuma e o pânico tomou conta do ambiente, começou o choro dos perdedores daqueles que perderam a vida (sim, muitos choraram antes de morrer), dos que saíram com mutilações e deformidades e dos que sobreviveram sem ferimentos.

O choro dos perdedores não parou. Minutos depois, as lágrimas se esparramaram entre parentes e amigos daqueles que estavam na boate Kiss. Os telefones buscavam respostas para o desespero, mas o silêncio foi aterrador: para muitos, não havia mais voz, não havia mais força, não havia mais vida. Só dor, e choro. Dos perdedores.

Amanheceu o dia. Santa Maria começou a perceber a extensão da tragédia e o choro, como que uma peste que se abate sobre os miseráveis, se alastrou pelo coração do Rio Grande, atingindo a quem sequer conhecia quem estava dentro da boa-te. Em poucas horas, muitas cidades choravam seus mortos e feridos, afinal, também lá havia perdedores. O Brasil e o mundo voltaram seus olhos, cheios de lágrimas, para Santa Maria, irmanados na dor da perda de tantos filhos, arrancados da vida pela ganância e desprezo de alguns poucos que buscavam na ânsia de viver da juventude o lucro e a riqueza acima de tudo.

Dia seguinte, os principais responsáveis pela tragédia começam também a perder, pois suas liberdades foram restringidas. Imagina-se que também começaram a chorar, já que perder a liberdade, longe de perder a vida, também dói. No correr dos dias, constatada a estreita relação entre as mortes e a ganância, o choro foi mais intenso. Uma autoridade expõe sua dor ao mundo e anuncia que se permitiu chorar (não que as demais autoridades não chorassem).

Alguns poucos, talvez, não tenham chorado, insensíveis à dor e à perda de bens tão preciosos. Então, alheios ao sentimento do mundo, dizem que a liberdade é maior que a vida, e, assim, são eles libertados. As lágrimas, antes contidas junto ao ombro amigo, ao túmulo daquele que havia sido assassinado, na lembrança do amigo, do parente que tão estupidamente foi arrancado do mundo, volta agora com toda a força e faz reviver a morte, a perda, e a dor que se faz tão intensa quanto no primeiro dia. Os gritos de revolta ecoam e, mais uma vez, Santa Maria agoniza, chora e clama por justiça.

Um sábio declara: isto é choro de perdedor. Absoluta sabedoria: todos aqueles que perderam (imagina-se que o sábio que proferiu a expressão esteja se incluindo no rol de perdedores, pois vive neste planeta e é pai), quando centenas de seres humanos morreram ou sobreviveram como vítimas da ganância e do desprezo pela vida, não podem deixar de chorar quando veem que os responsáveis estão livres. E livres, ou porque não são perigosos e não representam risco à ordem pública, ou porque não há mais clamor ou risco à instrução – afinal, é absurdo se imaginar que vão fugir da punição pelo que fizeram, já que 242 mortes não é nada, absolutamente nada, diante da liberdade de quem mata por dinheiro.

Por Joel Dutra, Promotor de Justiça em Santa Maria

O legado intangível da Copa do Mundo

Em 1997, em minha primeira viagem como judoca da seleção brasileira, conheci pessoalmente o campeão olímpico de judô Aurélio Miguel. Foi um dos dias mais marcantes da minha vida, porque estava iniciando minha trajetória na seleção e estava ao lado daquele em que me inspirava a cada treino. Era um sonho que começava com a realização de outro sonho. O impacto desse encontro se deu ao longo de toda minha atuação como judoca. Imagino, então, o impacto que os dois maiores eventos esportivos do mundo – Copa do Mundo e Olimpíadas – podem significar para milhares de brasileiros.

Quantos meninos e meninas, ao verem, em seu país e em sua cidade, os melhores atletas do mundo, não sentirão a mesma emoção que senti em 1997? Quantos jovens não passarão a olhar o mundo com outros olhos, vislumbrando no esporte uma alternativa de vida?

Grandes ídolos como Ayrton Senna e Gustavo Kuerten nos aproximaram de esportes que eram considerados de elite. Viramos, por esses dois grandes homens, a pátria do automobilismo e do tênis. Hoje, somos a pátria de chuteiras, mas também do vôlei, do iatismo, do judô, do basquete, da natação… Somos, cada vez mais, um país que valoriza o esporte. E é esse o principal ponto dos grandes eventos que sediaremos nos próximos anos: precisamos – e podemos – nos consolidar como potência esportiva. Mas, antes de tudo, precisamos nos tornar um país que tem sua cultura esportiva.

O esporte muda a vida das pessoas. Cria oportunidades onde, muitas vezes, quase não há expectativa. É hora, portanto, de acentuarmos essas possibilidades e incentivarmos a prática esportiva desde a escola.

Copa do Mundo e Olimpíadas são muito mais do que grandes obras de mobilidade urbana. São todas as grandes obras e, também, a chance de termos um legado inatingível, aquele que muda o rumo da vida das pessoas pelo exemplo positivo, aquele que atinge cada menino e cada menina após uma vitória ou a conquista de uma medalha. Precisamos enxergar em cada cidadão a chance de reproduzir o que seus ídolos fazem e isso o esporte pode proporcionar.

Ao assumir a presidência da Comissão Especial da Copa do Mundo (CECOPA) da Câmara Municipal, trabalharei com este objetivo: o esporte como uma cultura própria do município. Seremos uma cidade muito melhor se soubermos atingir e priorizar o legado intangível. Um legado nos transformará numa cidade com mais e melhores perspectivas.

João Derly
Vereador PCdoB/POA e presidente da CECOPA

Violência contra a mulher: mais de 40 mil homicídios femininos em uma década

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Por Luiz Flávio Gomes, no Brasil de Fato

Apesar dos avanços dos últimos anos, no que tange à violência contra a mulher, levantamento feito Instituto Avante Brasil apontou que 40 mil mulheres foram vítimas de homicídios no Brasil, entre 2001 e 2010. Só no ano de 2010, 4,5 entre 100 mil mulheres perderam suas vidas no país.

Consoante o Instituto Avante Brasil, em 2010, uma mulher foi vítima de homicídio a cada 1 hora, 57 minutos e 43 segundos. Em 2001, a média era de 2 horas, 15 minutos e 29 segundos. O crescimento de mortes anual, entre 2001 e 2010, foi de 1,85% ao ano.

A mesma projeção aponta que em 2013 deverão ocorrer 4.717 homicídios entre as mulheres brasileiras.

Segundo a Organização das Nações Unidas, cerca de 70% das mulheres sofrerão algum tipo de violência no decorrer de sua vida. E, de acordo com o Banco Mundial, as mulheres de 15 a 44 anos correm mais risco de sofrer estupro e violência doméstica do que de câncer, acidentes de carro, guerra e malária.

Na América do Sul, o Brasil só perde em homicídios de mulheres para a Colômbia, que registrou, em 2007, uma taxa de 6,2 mortes para cada 100 mil mulheres. Atrás do Brasil vem a Venezuela, com 3,6 mortes para cada 100 mil mulheres em 2007, Paraguai que registrou em 2008 1,3 mortes para cada 100 mil mulheres e o Chile com 1 homicídio feminino para cada 100 mil mulheres em 2007.

Pesquisa da Organização Mundial da Saúde, que traz informações de 2006 a 2010, mostra que, se comparado com alguns países com dados homogêneos, a diferença é ainda maior: o Brasil ganha da Rússia, que registrou, em 2009, 7,1 homicídios femininos, mas atrás de países como Estados Unidos, Japão, França e Reino Unido.

A Organização Mundial da Saúde sugere que existam alguns fatores de risco que podem ser associados a um indivíduo que pratica um crime contra a integridade física de uma mulher:

– níveis mais baixos de educação (perpetração da violência sexual e da experiência de violência sexual);

– exposição a maus-tratos (perpetração e experiência);

– testemunho de violência familiar (perpetração e experiência);

– transtorno de personalidade antissocial (perpetração);

– uso nocivo do álcool (perpetração e experiência);

– ter múltiplos parceiros ou suspeita por seus parceiros de infidelidade (perpetração), e atitudes que estão aceitando de desigualdade violência e gênero (perpetração e experiência).

Apesar de todas as campanhas e recomendações das Organizações Mundiais contra a violência feminina, o que se vê (no Brasil) são números que crescem e preocupam a cada dia mais.

O número de estupros no estado de São Paulo, por exemplo, ganhou proporções descomunais. O número de vítimas não para de crescer. Segundo dados da Secretaria de Segurança de São Paulo, o crime de estupro foi o delito que mais aumentou nos últimos anos no nosso Estado. De 2005 a 2012 houve um crescimento médio anual de 19,7%, o que significa uma alarmante evolução de 230%.

Não basta apenas apresentarmos soluções ou agravarmos esse tipo de crime, mais que isso, faz-se necessário que os cidadãos sejam educados à valorização da vida e do ser humano de um modo geral.

Especialmente no que tange às mulheres, que por fazerem parte durante décadas de uma sociedade patriarcal, encontram dificuldades no momento em que percebem estar sendo vítima do abuso ou da violência, de denunciar seus opressores, muitas vezes parceiros e membros da família.

A importância do Centro de Eventos

Porto Alegre tem se constituído, ao longo dos anos, como referência no turismo de eventos. Cada vez mais instituições e empresas escolhem a capital dos gaúchos para realizar seus congressos e seminários, tendo em vista atrativos como a qualidade dos serviços, a proximidade entre o aeroporto e o Centro e a variedade de hotéis com boa acomodação. O crescimento deste ramo de turismo, no entanto, esbarra na falta de opções de espaço para eventos de grande porte. Apesar de contar com dois estádios de futebol capazes de sediar jogos de nível mundial, não podemos dizer o mesmo sobre locais para a prática de outros esportes, tampouco sobre espaços para conferências internacionais na área científica ou de saúde, por exemplo. Esta barreira, porém, pode ser vencida com a construção do Centro de Eventos em Porto Alegre.

A Secretaria Estadual do Turismo está estudando o melhor local para a construção de um centro multiuso para eventos de nível mundial, com projeto arquitetônico assinado por Oscar Niemayer, sendo esta sua última obra. Defendemos que Porto Alegre receba o Centro de Eventos por toda a excelência em turismo, facilidades de acesso, hotelaria e gastronomia que a cidade já oferece, e para potencializar ainda mais nosso turismo. Ouso afirmar que seria uma aventura construir o centro em outra cidade que não tenha a mesma tradição conquistada por Porto Alegre nesta área de eventos.

A prefeitura já ofereceu uma grande área na região do Partenon, nas proximidades do Hipermercado Carrefour, para que o Estado possa construir o espaço. Enquanto o local não é definido, reforçamos a necessidade de um esforço conjunto de todos os segmentos da Capital para fazer com que o Centro Estadual de Eventos fique aqui.

Vereador Airto Ferronato

Creches noturnas: uma necessidade real

Um debate importante foi lançado pelo Jornal do Comércio: a necessidade das creches noturnas. A bancada do PCdoB na Câmara Municipal, assim como todos os que entendem o significado da participação da mulher no mercado de trabalho e sua formação profissional, defende as creches noturnas. Os motivos são muitos: o déficit de 12 mil vagas públicas na Educação Infantil da Capital; a maior participação das mulheres no mercado de trabalho; e o dado do IBGE que aponta que 72% dos jovens estão no mundo do trabalho. Quantos deles são pais e mães e precisam, para contribuir nas despesas de casa, deixar seus filhos em creches?

Na cidade de Poá (SP), a implementação de creches noturnas foi aprovada. Em Maringá, já são uma realidade consolidada. Em Curitiba, as creches noturnas têm fila de espera. Em Santa Cruz do Sul, a creche Cooperativa de Educação e Serviços Renascer passou a oferecer o terceiro turno, das 22h30min às 6h30min. Na Suécia, há mais de 20 anos há creches que funcionam durante a noite e aos fins de semana para atender pais que trabalham em turnos não convencionais. E no Brasil, no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre? Quando entenderemos que, para o Brasil crescer, jovens e adultos precisam trabalhar e, para isso, precisam que seus filhos sejam assistidos? É dever do Estado garantir vagas na Educação Infantil para todas as crianças, e isso significa garantir que o(a) trabalhador(a) que atua em horários não convencionais – como em hospitais – tenham onde deixar seus filhos.

Nossa cidade precisa de creches noturnas. Não será o preconceito, a falta de aceitação de parte da sociedade ou a suposta pequena demanda que mudarão essa realidade. Porto Alegre está atrasada e precisa garantir que mães trabalhadoras e de baixa renda tenham garantido o direito de seus filhos, para que possam trabalhar em segurança, sem comprometer a renda familiar ou a escolaridade de seus outros filhos.

João Derly e Jussara Cony
Vereadores/PCdoB

125 anos de liberdade

O primeiro grito que ecoou da senzala não clamava apenas pelo fim da escravidão, mas implorava também por igualdade. Não essa igualdade de sermos todos iguais, de gostarmos da mesma música, da mesma cor, dos mesmos santos, das mesmas coisas. O grito que foi ouvido durante os 388 anos de escravidão negra no Brasil continua a ecoar até os dias de hoje, 125 anos depois da assinatura da Lei Áurea, afinal ainda não temos direitos iguais e, tampouco, a igualdade de gostarmos da cultura que nossos ancestrais trouxeram da África.

Muita coisa mudou após o 13 de maio de 1888, mas ainda existe muito a mudar e melhorar. A tal igualdade se chama direitos iguais. Respeito por nossas diferenças. Temos a cor da pele diferente, o cabelo diferente, o nariz, a musicalidade, a religião e tantos outros gostos e aspectos transmitidos de forma oral por nossos ancestrais. Não pedimos muito, pedimos apenas respeito por sermos diferentes.

Hoje, sei que a lei que aboliu a escravidão negra no Brasil não foi um presente como me ensinaram as professoras do primário. Foi, sim, resultado da luta de quilombolas, de abolicionistas, da pressão inglesa, dos maçons, da revolta de negros e de negras que morreram para que seus filhos pudessem ser livres. Hoje, ainda somos a maioria nas favelas e a minoria nas universidades. Hoje, existem leis que nos protegem contra o racismo, mas não contra aquele olhar frio que traumatiza. Hoje, muitos já são doutores, ministros, escritores engenheiros, mas continuamos sendo a maioria nas penitenciarias.

As políticas de ações afirmativas não precisariam existir se a luta não fosse desigual. Não é fácil lidar com a questão racial em um país que não se assume preconceituoso e racista. No Brasil existe, sim, racismo, afinal nas ações cotidianas da polícia se identifica facilmente um suspeito e ele tem a cor, feições e cabelos igual ao meu. Ele é negro.

125 anos depois do fim da escravidão, peço respeito por onde eu passo e peço que respeitem a minha diferença, que começa na cor de pele. Não sou amaldiçoado por ser negro, nem meus ancestrais cultuavam o demônio. Somos samba e, também, doutores. Somos parte de um todo que foi criado para viver em harmonia, independente da cor de pele.

Por Marcelo M. Carvalho

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