Como a solidariedade muda a vida de dona Amélia e seus 10 netos

Os 10 netos já estavam ilhados sobre uma cama de casal quando Amélia Moura, 62 anos, tomou coragem para deixar sua residência no bairro Itaí, em Eldorado do Sul, na Região Metropolitana. Mesmo com a água já batendo na altura dos joelhos, ela achava que as crianças poderiam não ter tudo o que precisavam em abrigos longe de casa . Talvez passassem fome, talvez sentissem frio. Estava enganada, como ela mesma diz.

Na manhã desta quarta-feira, dona Amélia, 10 netos, duas noras e uma filha completavam 24 horas no ginásio do bairro Loteamento — os homens da casa se dividem entre o trabalho e a segurança do terreno deixado provisoriamente. Elas dividem o abrigo com outras 56 famílias, cerca de 250 desalojados pela chuva.

Os adultos tomavam chimarrão e cuidavam de Iago, sete meses, e Ágata, um ano. As outras oito crianças, que seguem uma escadinha que vai de quatro a 12 anos, corriam de um lado para outro com bonecas Barbie, máscara do Batman, miniatura do Homem-Aranha, piano, desenhos para colorir e até um — bem disputado — patinete. O pouco de conforto só é possível de uma maneira:

— Se não fossem as doações, estaríamos perdidos, sem ter a quem socorrer. Só saí de casa pela vida dos meus netos. Recolhemos os documentos e viemos com a roupa do corpo. Agora olha tudo o que já temos aqui — diz Amélia.

O “tudo que temos aqui” parece pouco, mas é suficiente. São cinco colchões, roupas para todas as crianças, cobertores, travesseiros, térmica, cuia e água quente, e quatro refeições diárias.

— Tem bolinho e suco a torto e direito. Acho que as crianças nunca comeram tanto — complementa a avó, rindo aliviada.


E se faltar algum item, a coordenação do abrigo logo apela via Facebook, Whatsapp, seja lá como for e, em poucas horas, carregamentos chegam ao local. De acordo com a assistente social Cléa Silvério, felizmente, basta pedir. A solidariedade tem vindo com pressa.

Até sexta-feira, as refeições da população abrigada no ginásio do município estão programadas. São empresas, entidades e grupos de amigos que ofereceram ajuda e se dividem entre café da manhã, almoço, café da tarde e jantar. E, se der fome nos intervalos, uma despensa improvisada também guarda alguns quilos de comida.

— O poder público não tem agilidade, depende de liberação, é mais burocrático. É por isso que a doação e a solidariedade das pessoas se torna tão importante. Com isso, o socorro vem mais rápido e ameniza o quanto antes os prejuízos de quem mais precisa — afirma Cléa.

* Zero Hora

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