À beira da Copa, histórias de uma obra que ficou pelo caminho

Por Ramiro Furquim/Sul21

Li o texto abaixo através de um link do Facebook. Escolhi dividir com vocês para que vejam um pouco da realidade que falávamos em 2012  e que muitos desacreditaram. Não preciso falar muito mais, o texto explica uma situação difícil e que poderia ter sido evitada.

Há meses que as ruas da Vila Cruzeiro, bairro da Zona Sul de Porto Alegre, parecem incompletas. Ao lado de casas bem construídas estão terrenos baldios com acúmulo de lixo e restos do que um dia foram paredes, móveis, objetos pessoais e outros materiais. Ao longo da Avenida Tronco os sinais de destruição são visíveis desde o ano passado, quando a duplicação da rota exigiu a remoção de centenas de famílias.

A obra, que envolve recursos estimados em mais de R$ 150 milhões pela Prefeitura de Porto Alegre, já foi prioridade para a Copa do Mundo, mas hoje está suspensa e à espera de definições. A menos de três meses do Mundial, há muita polêmica em torno das estruturas temporárias no Beira-Rio e outros temais urgentes como o futebol. A situação dos moradores da avenida Tronco deixou de ser assunto. Mas eles estão lá, convivendo com escombros e com a realidade de não serem mais prioridade para a Copa.

Dados da Prefeitura de Porto Alegre apontam para mil e quinhentas famílias diretamente afetadas pela duplicação, que, mesmo antes de ficar pronta, já altera de maneira drástica o cenário da área. Próxima de bairros como Menino Deus e Santa Teresa, a Vila Cruzeiro fica a poucos minutos do Centro.

Mesmo ciente da dificuldade de mover milhares de pessoas, algumas vivendo há anos na Zona Sul, para outros pontos da cidade, a Prefeitura de Porto Alegre acreditava na finalização do processo até a Copa do Mundo. Importante rota da região, a Avenida Tronco também se relacionaria com o trânsito das imediações do Beira-Rio, o estádio que irá receber o Mundial. Para tanto, o Departamento Municipal de Habitação (DEMHAB) ofereceu às famílias possibilidades como o bônus moradia (pelo qual, ao serem removidas, receberiam o valor de R$ 52.340,00 para adquirir outra moradia) e o aluguel social (destinada aos moradores que preferiam permanecer no bairro, a modalidade pagaria R$ 500,00 mensais até a construção de residências do programa federal Minha Casa, Minha Vida).

No entanto, a iniciativa do Executivo municipal encontrou forte resistência e reclamações entre a população do bairro e das imediações. Nos meses de junho e julho de 2013, dezenas de pessoas se queixaram do atraso no pagamento das parcelas do bônus moradia e do aluguel social. Mais do que isso, exigiam garantias formais da Prefeitura para deixarem as suas casas. Formado por moradores da Vila Cruzeiro e militantes de movimentos sociais, o Comitê Popular da Copa incentivava a exigência do “chave-por-chave”, ideia que defendia a saída das atuais moradias apenas quando as chaves e os papeis das novas casas já estivessem nas mãos de cada família. Quase nove meses depois, ainda é possível ouvir reclamações semelhantes quando se conversa com alguém nas calçadas da larga Avenida Tronco.

Ainda não há prazo para a entrega das moradias populares do Minha Casa, Minha Vida, como admite Marcos Botelho, o diretor do DEMHAB responsável pelo escritório do departamento na Tronco. Ele afirma que os avanços dependem também da Caixa Econômica Federal e que, em abril, “os projetos das empresas que participaram da licitação podem ser aprovados”. Em fevereiro, representantes da secretaria de Gestão da Prefeitura de Porto Alegre afirmaram ao Jornal do Comércio que a duplicação da Avenida enfrenta atrasos por conta da remoção das pessoas que habitam o contorno da avenida e das árvores que crescem no local.

Por Ramiro Furquim/Sul21

A remoção estampada em vermelho

As casas que serão demolidas nos próximos meses mostram uma marca vermelha com um número nas suas fachadas. É o que acontece na casa de Dircéia, próxima ao ponto em que a reforma na pista foi interrompida. A dona de casa diz que não tem a situação definida e que espera por uma visita do poder municipal para avaliar o imóvel, que pode ser indenizado. “Eu já tinha intenção de sair, mas o pior de ver no bairro são as casas derrubadas, com as paredes no chão, juntando lixo, ratos”, conta. Dircéia afirma que “as condições e os prazos” da Prefeitura são confusos, e que não sabe exatamente quando precisará ir embora.

O temor de uma saída abrupta da Vila Cruzeiro existe até mesmo nos que puderam negociar de maneira clara a compra de outro imóvel. Ivan Cazarotto, proprietário de uma oficina mecânica na avenida, afirma que foi indenizado pelo seu negócio e que já tem à disposição um terreno para recomeçar os trabalhos em outro lugar. “O que me assusta é eles chegarem aqui e mandarem sair logo, mas espero que não aconteça comigo. Até aqui, não tenho do que reclamar, mas alguns vizinhos eu sei que tem”, relata. Para ele, o fato de boa parte das residências estarem em situação irregular deixa a população fragilizada nas negociações.

Vera Müller, que trabalha numa funilaria da avenida, vive há aproximadamente 20 anos na Cruzeiro. Para ela, a indenização oferecida pelo DEMHAB é insuficiente para que consiga arranjar uma nova área em outro bairro da Zona Sul de Porto Alegre. “O metro quadrado por aqui está caríssimo, principalmente com a proximidade do shopping (Barra Sul Shopping, situado nas cercanias do bairro Cristal), e com o valor que me ofereceram fica difícil conseguir qualquer coisa”, diz. Vera lembra que, ao contrário do que ouvia há meses atrás, agora a duplicação da avenida não parece ser prioridade para a Prefeitura. “Ouço na mídia que vai ficar tudo para o final de 2015, sendo que a previsão era para a Copa do Mundo”, recorda.

Para Vera, os moradores perderam força ao não se organizarem em conjunto para pleitear uma saída mais digna. “Não se fala nisso por aqui”, resume ela. No início de julho de 2013, o Bloco de Lutas pelo Transporte Público e o Comitê Popular da Copa realizaram uma manifestação em que mais de mil pessoas caminharam pelas ruas da Cruzeiro. A duplicação da Tronco também foi objeto de estudo para professores e alunos da Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Em outubro, uma série de encontros discutiu com professores estrangeiros as alterações urbanas que o bairro tem enfrentado atualmente e irá enfrentar após a conclusão da obra. O previsível aumento nos preços dos imóveis e consequentemente do custo de vida da população também foi abordado nos debates.

Por Ramiro Furquim/Sul21

Hoje, com parte das casas já destruídas, a continuação do processo de duplicação e a saída dos moradores parecem inevitáveis. “A gente quer sair, mas tem que sair corretamente. As pessoas daqui, desde que isso começou, vivem angustiadas, irritadas, e não há um atendimento adequado para os moradores”, opina Paulo Pereira. É ele quem diz que tem a impressão de que “caiu um terremoto” na Vila Cruzeiro. Outros moradores das imediações do Postão da Cruzeiro, o posto de saúde do bairro, falam que o consumo de drogas e a insegurança aumentaram com as casas destruídas e o acúmulo de destroços.

Os números da Prefeitura

O DEMHAB informou, ao final da primeira quinzena de março de 2014, são 1.525 as famílias cadastradas no escritório da Avenida Tronco – todas elas precisarão deixar as suas casas. Até o momento, 428 optaram pelo bônus moradia, 112 foram indenizadas pela Prefeitura e 105 estão recebendo o aluguel social no valor de R$ 500,00. De modo que, da totalidade dos casos, 880 permanecem indefinidos e sem previsão para deixar o bairro.

Mais de uma vez, a Prefeitura e o DEMHAB afirmaram que a obra não avança depressa porque “o tempo da duplicação é o tempo das famílias”. Militantes e parte dos moradores opinam que a demolição de algumas casas foi feita para pressionar as demais famílias a deixar a Vila Cruzeiro de forma rápida e intimidar os que resistem na Zona Sul. “Quando se tira sem garantias, as pessoas saem daqui para formar outra vila. E no futuro a Prefeitura irá tirar essas mesmas pessoas de lá também. Aqui na Cruzeiro, tem gente que já passou por outra indenização e por remoções”, afirma Vera Müller, moradora da Avenida Tronco.

Fonte: http://impedimento.org/a-beira-da-copa-historias-de-uma-obra-que-ficou-pelo-caminho/

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