junho 2013 archive

Maioria da frota usada no transporte escolar tem mais de uma década

Pesquisa do Tribunal de Contas do Estado aponta sucateamento em 55% dos veículos
Dos 6,6 mil veículos empregados pelos municípios gaúchos no transporte escolar, 55% têm mais de uma década de fabricação, idade considerada avançada e que coloca em risco a segurança de alunos. O dado é o principal item da radiografia que será apresentada nesta terça-feira pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). A pesquisa foi realizada entre maio e agosto de 2012, com base em informações coletadas junto a 483 prefeituras em 2011, e irá subsidiar auditorias do TCE.

Outro agravante para este cenário é o projeto de lei do senador Paulo Bauer (PSDB/SC), que proíbe a utilização de coletivos com mais de 10 anos. No final do ano passado, a proposta recebeu parecer favorável na Comissão de Educação do Senado e, agora, aguarda designação de relator na Comissão de Constituição e Justiça. Se o projeto for aprovado em Plenário, metade da frota gaúcha ficaria em situação irregular.

Para o professor de Transportes da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) João Fortini Albano, a idade dos veículos que transportam estudantes deveria ser limitada a oito anos para evitar acidentes e contratempos.

Além da necessidade de inspeções frequentes, o custo de manutenção, calcula o professor, pode ser até 40% superior. Freios, faróis, pneus, suspensão e rolamentos são os componentes mais impactados pelo uso prolongado.

— São veículos problemáticos devido à idade avançada e ao desgaste natural. Então, o risco é potencialmente maior. O percentual (de 55% da frota) é preocupante, pois coloca em risco a segurança dos alunos e também de terceiros — descreve Albano.

Otimista, secretário aposta em solução em uma década

O presidente da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), Ary Vanazzi, reconhece a dificuldade de renovação dos veículos.

— Conheço ônibus que é de chorar só de ver, mas os municípios não têm outra alternativa — admite.

Apesar de os repasses da União e do Piratini aos municípios para investimento em transporte escolar terem aumentado 40% nos últimos quatro anos, Vanazzi acredita que os R$ 100 milhões previstos para este ano ainda são insuficientes.

Ele defende incremento de R$ 25 milhões no montante para a manutenção adequada.

— O transporte escolar sempre foi delegado aos municípios, sem nenhum apoio. Quando deixamos de transportar é que passaram a prestar mais atenção — afirma Vanazzi.

De acordo com o secretário de Educação, Jose Clovis de Azevedo, a frota escolar pública do Rio Grande do Sul está em franco processo de rejuvenescimento.

O secretário ressalta que, em 2013, mais de 400 ônibus novos chegarão ao interior gaúcho, sendo que metade deles será repassada ao governo do Estado, que fará a distribuição. O critério de entrega, contudo, será o tamanho da área municipal, e não o tempo de uso dos veículos.

A primeira leva já foi colocada à disposição pela presidente Dilma Rousseff no início do mês de abril, quando 91 prefeituras foram contempladas com 200 veículos, em um investimento que totaliza R$ 47 milhões. Otimista, Azevedo conclui:

— Acho que, ao longo de uma década, essas questões não farão mais parte da pauta educacional, pois estaremos trabalhando outros pontos importantes que não a infraestrutura.

O SUCATEAMENTO

Mais de 40 anos: 7 (0,1%)

De 30 a 40 anos: 139 (2,1%)

De 20 a 30 anos: 622 (9,4%)

De 15 a 20 anos: 1.253 (18,9%)

De 10 a 15 anos: 1.618 (24,5%)

De 5 a 10 anos: 1.148 (17,4%)

Até 5 anos: 1.514 (22,9%)

Novo: 314 (4,7%)

Total: 6.615

Fonte: Tribunal de Contas do Estado (TCE) | Zero Hora

Falta de areia ameaça as obras para a Copa

Se a proibição de minerar areia no rio Jacuí permanecer, conforme determinação da Vara Federal Ambiental de Porto Alegre, as obras dos corredores de ônibus BRTs da Capital devem ser paralisadas ainda nesta semana. O alerta foi feito na manhã de ontem pelo presidente do Sinduscon-RS, Paulo Vanzetto Garcia, e pelo diretor administrativo-financeiro do Sicepot-RS, Nilto Scapin. Os corredores fazem parte do conjunto de obras de Porto Alegre para a Copa do Mundo de 2014.

Apesar de recurso apresentado na semana passada por duas das três empresas mineradoras (Smarja, Somar e Aro), rés em uma Ação Civil Pública ajuizada em 2006, cerca de 95% da extração na principal jazida de fornecimento de matéria-prima para a Capital e Região Metropolitana permanece interrompida. A Justiça sustenta falta de laudos capazes de assegurar condições ambientais mínimas para a retomada das atividades.

Mesmo com a garantia dos representantes das duas principais entidades ligadas à construção civil gaúcha de que obras para o Mundial do ano que vem terão o fornecimento comprometido nos próximos dias, o munícipio afirma que não recebeu nenhum tipo de comunicado oficial. De acordo com o coordenador técnico das obras da Copa pela Secretaria Municipal de Gestão, engenheiro Rogério Baú, o procedimento inicial seria o encaminhamento de um documento que oficializasse o risco.

“Mesmo assim, o que precisa ficar claro é que a situação é complexa. Temos contratos assinados, e as empresas precisam fornecer material de qualidade. É preciso considerar que, se há falta, estamos sensíveis, mas existem alternativas no mercado e em hipótese alguma os custos poderão ser repassados para o contratante, pois existem cláusulas bastante claras em cada um dos contratos”, considerou.

Na avaliação das entidades, no entanto, projetos ligados ao programa federal Minha Casa Minha Vida bem como as obras da BR-448 e da BR-386, também estariam ameaçados de cortes no fornecimento. Segundo Nilto Scapin, do Sicepot-RS, os riscos maiores recaem sobre todas as obras que demandam placas de concreto. “A areia hoje é um produto de uso social, que representa muitas empresas, arrecadação e empregos. Entendemos que essa escassez, além de tirar a arrecadação, fará com que muitas outras obras sejam paralisadas”, complementou.

Por isso, atualmente, boa parte das entregas realizadas contam com areia oriunda das microrregiões de Cacequi, Santa Maria, Cachoeira do Sul e Rio Pardo. Porém, conforme Scapin, fornecedores de concreto já estão recebendo menor quantidade do que os compromissos firmados com as mineradoras. Em alguns casos, de 200 metros cúbicos ao dia, as entregas não ultrapassam 100 metros cúbicos e, como consequência, as empreiteiras também fornecem de maneira espaçada às construções.

“Estamos minimizando o fato, mas o custo desse material duplicou. Isso tem um impacto enorme. E isso faz com que os reflexos sejam ampliados também nessas regiões que, teoricamente, não seriam afetadas”, afirma, ao identificar aumentos de 70% nos valores praticados pelo metro cúbico nas últimas três semanas.

Por isso, o presidente do Sinduscon-RS, Paulo Vanzetto Garcia, defende que uma saída de curto e longo prazo passaria por atuação mais incisiva do governo do Estado. Para ele, a realização de estudos ambientais para atividade de mineração na Lagoa dos Patos e no lago Guaíba integrariam um planejamento estratégico para o setor.

No entanto, o fato não anularia a necessidade “imediata” de retomar a atividade nas jazidas do Jacuí, pois as opções existentes levariam, no mínimo, dois anos para a obtenção de laudos conclusivos sobre a atividade. “São perícias, zoneamentos e uma infinidade de estudos. Em curto prazo, a solução é o rio Jacuí. Do contrário, vai parar tudo. A solução para amanhã e para a semana que vem é o Jacuí”, enfatizou Garcia.

O dirigente ainda cobrou ações do governo gaúcho para a produção de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para garantir o abastecimento de areia. “Somente o Estado tem condições de garantir ao Judiciário e à sociedade gaúcha que essa extração será feita de forma oficial, com fiscalização adequada que minimize de todas as formas qualquer dano ambiental. Até porque apenas as partes podem se manifestar dentro deste processo. O Estado é uma das partes, por meio da Fepam, e esse é o caminho para se tentar alterar a atual situação. Hoje, o governo está lavando as mãos para um problema que é dele”, defendeu, ao lembrar que o setor da construção civil é responsável pela composição de cerca de 7% do PIB gaúcho.

Fonte: Jornal do Comércio

DEBAIXO DA PONTE, UM ALUNONOTA 10

Mesmo morando sob teto improvisado, José Luiz Moni, 15 anos, um estudante exemplar, acalenta o sonho de se tornar médico
Debaixo de uma ponte da BR-116 mora um menino que drena toda a sua força para os estudos na esperança de, futuramente, se formar doutor. Colecionador de notas 10, José Luiz Camboim Moni tem 15 anos, pouco menos de 1m70cm e se expressa melhor com um sorriso doce do que com as palavras.

Tendo como teto o asfalto da rodovia que liga Porto Alegre ao Interior e rodeado pelas dificuldades de quem não tem um endereço formal com CEP e número de residência, José mora com a mãe, viúva, e dois irmãos.

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Os obstáculos que encontra nos planos para se tornar médico, ele supera com criatividade. São muitos os exemplos. Sem pasta para carregar os livros, avistou nas últimas férias uma mochila boiando no Arroio Sapucaia. Recolheu, limpou e hoje a usa para ir à escola. Repetiu de ano apenas uma vez, aos sete anos, quando ingressou na Escola Estadual de Ensino Fundamental Ezequiel Nunes Filho, de Esteio. Foi justamente na época em que o pai morreu atropelado. O acidente coincidiu com o mesmo ponto da rodovia em que a família vive hoje –, perto do km 259, em frente à empresa Refap. Depois da repetência, virou um aluno exemplar. Jamais deixou de entregar um trabalho. Em 2012, recebeu um certificado por estar entre os melhores alunos.

São 10 minutos a pé que separam José da escola. Quando retorna para o lar, nem mexe nos cadernos. No barraco de piso vermelho, de terra úmida e luz fraca, precisaria dividir a atenção no conteúdo com o trepidar do asfalto sobre a sua cabeça e com o ranger dos trilhos do trem. Assim, adotou uma estratégia:

– Ele é o primeiro a entregar as tarefas e as realiza com ótimo desempenho. Como não tem um ambiente apropriado em casa para estudar, prefere fazer os temas na aula. Isso nos comove – revela Mart’Ana Silva Pereira de Melo, professora de língua portuguesa.

Sob a proteção da ponte, são os desenhos ou filmes no DVD que deixam José feliz. Foram estes momentos de lazer, assistindo a filmes de ação, aliás, que estimularam a imaginação do adolescente e fizeram brotar o desejo de salvar vidas.

– É o que eu gosto de fazer porque aqui não dá para fazer outra coisa. Se jogar bola, pode cair no arroio. Fico olhando os filmes, imaginando se um dia eu vou mesmo conseguir ser médico – argumenta José.

Estudante da 8ª série, preenche o dia com as idas constantes à biblioteca e ao laboratório de informática. Na internet, usa o buscador para executar os trabalhos e, sempre que dá, digita “corpo humano” em sites de busca e se diverte com os resultados sobre o tema que mais o atrai.

– Ele se concentra nas atividades e é muito inteligente. Leva tudo a sério. A gente percebe que ele tem consciência de que é preciso se dedicar para haver uma mudança na vida – avalia a diretora da escola Cláudia Alves.

Mas ainda falta muito para que o futuro do menino se organize. Prestes a ingressar no Ensino Médio, José nem sabe bem o que é Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). De todas as formas que persegue o sonho da Medicina, para ele, a letra é o sinal mais claro.

– Já tenho letra de médico. Só eu me entendo – brinca José.

– Mas no meu tempo não era assim. Tu tinhas a letra bem caprichada, José – observou Márcia Porciuncula, a professora responsável pela alfabetização.

A mesma mulher que mostrou a ele o universo do saber, agora está mobilizando a comunidade em torno de uma causa. Em novembro, os colegas farão uma viagem para o Beto Carreiro. São oito parcelas de R$ 52 que serão custeadas pela comunidade escolar para que ele possa acompanhá-los.

Será a primeira vez que o menino olhará o mundo que existe além de Esteio.

O trepidar dos pilares agora não assusta mais
A miséria não impede que José ande sempre no capricho: banho tomado, cabelo aparado, estômago cheio e roupas limpas. Sozinha, a mãe, Tatiana, 35 anos, cria o garoto e os irmãos Matheus, 13 anos, e Jorge,11 anos, e ainda auxilia a filha mais velha Jéssica, 19 anos, e o neto de três anos, que moram no mesmo terreno.

Tatiana sustenta a casa como carroceira. Ou melhor, sustentava. É que no começo de maio, um carro bateu na traseira do veículo velho e desmontou-o. Enquanto aguarda o conserto, trabalha em um galpão de reciclagem e, por isto, recebe uns trocados, que dão para as três refeições diárias.

Depois que o marido morreu, pagar as contas ficou cada vez mais complicado, e a mulher que sempre teve teto, quarto, sala, banheiro e cozinha, achou a ponte até que bem aprazível quando ficou sem ter para onde ir.

Chegou lá há oito meses. Levou tudo o que tinha na antiga moradia e mobiliou o espaço público. Foram dois meses até a família se acostumar com o trepidar dos pilares.

– Para dormir, só na base do remédio. Parecia que a qualquer momento um carro ia despencar nas nossas cabeças. Agora nem ligo mais – garante Tatiana.

Dá para contar nos dedos os poucos objetos que enfeitam paredes ou decoram ambientes: um relógio sem pilhas, um buda de porcelana, um ramalhete de chá de marcela, algumas fotos nas paredes do quarto e cartas que ganhou dos filhos.

Às 20h fecha as portas da casa – que de fora, se assemelha a uma caverna –, acomoda as crianças. Antes de dormir, retira a Bíblia do criado mudo ao lado da cama e lê até adormecer. O mantra em suas preces é sempre o mesmo: que todos os filhos encontrem o caminho do bem. Sobre os planos para o futuro, fora o de ter um médico na família, nenhum outro. Ainda não sabe se vai conseguir sair dali tão cedo, mas tem fé.

– Não há mal que dure para sempre, tu não acha? – pergunta para a repórter.

Fonte: Zero Hora

Capital ganhará o centro de eventos

Está decidido: ficará em Porto Alegre o Centro de Eventos para o qual o governo já tem assegurados R$ 50 milhões do Ministério do Turismo. No final da tarde de ontem, o governador Tarso Genro e a secretária Abigail Pereira bateram o martelo.

Fonte: Zero Hora – Rosane Oliveira

Qual será a cara da oposição nas eleições de 2014?

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As eleições são no final de 2014, mas a campanha já começou. O governador Eduardo Campos tem aparecido mais que o senador Aécio Neves — mas ele quer mesmo ser o anti-Dilma?

O calendário eleitoral brasileiro é inclemente. É uma eleição atrás da outra, sem descanso. Mal os vitoriosos são conhecidos e uma nova campanha tem início. É dentro dessa lógica que as peças começam a ser dispostas no tabuleiro para 2014. Estamos vivendo um momento decisivo: é a hora do flerte, mas também do blefe. O jogo se desenrola em dois níveis, envolvendo não apenas as candidaturas e as coligações para as eleições presidenciais do ano que vem.

Toda todas 27 disputas para governador também são definidas neste momento-chave. Progressivamente, de 1994 para 2010, as eleições aconteceram a partir de duas grandes alianças: a do PT e a do PSDB. Mais do que isso: esses dois campos foram reproduzidos no nível estadual. A disputa pela Presidência e pelos governos estaduais se entrelaçam.

Em nenhuma das últimas cinco eleições presidenciais, o terceiro colocado se aproximou dos dois primeiros ou os ameaçou seriamente. A candidatura de Anthony Garotinho em 2002, então no PSB, pode ser vista como a exceção que confirma essa regra. Naquela ocasião, houve alguma incerteza se o candidato socialista ou José Serra, do PSDB, passaria para o segundo turno. Mas vale lembrar que naquela eleição o presidente Fernando Henrique Cardoso não era candidato. A disputa foi, portanto, mais aberta do que será a de 2014. Desde 1994, o candidato e o partido do terceiro colocado perdem estatura na disputa presidencial seguinte.

Enéas Carneiro, Ciro Gomes, Garotinho, Heloísa Helena e Marina Silva compõem esse quinteto. O roteiro é semelhante: eles despontaram, foram vistos como promessas e possibilidades, mas amargaram um desconfortável esquecimento na eleição posterior. Ciro foi o único a alcançar visibilidade em duas oportunidades e, assim, conseguiu alguma sobrevida política. Marina é a dúvida desta vez. Será que ela conseguirá ter um papel importante na eleição para o Planalto do ano que vem?

PT e PSDB, nessa ordem, têm as candidaturas mais fortes e viáveis. Há alguma razão para supor que, em 2014, esses partidos perderão sua hegemonia sobre a disputa presidencial? Não creio, sobretudo quando se leva em conta que presidentes, independentemente do país de origem, raramente perdem uma reeleição. Somente sob condições econômicas muito adversas eles não são reeleitos. A presidente Dilma Rousseff é a candidata natural do PT. Resta saber quem será a cara da oposição.

O PSDB está prestes a colocar em marcha a campanha de Aécio Neves. Conta para isso com uma base sólida, o controle dos governos estaduais de Minas Gerais, São Paulo e Paraná, o que não é pouca coisa. O que está em jogo, portanto, é a composição das chapas aos governos estaduais. Saberemos quem se alinhará, em cada unidade da federação, com as duas candidaturas presidenciais, de Dilma e Aécio. Muito se fala sobre a movimentação do governador pernambucano Eduardo Campos, do PSB. Seu partido foi o grande vitorioso das eleições municipais de 2012.

Cresceu, ganhou musculatura, mas uma candidatura presidencial em 2014 pode ser arriscada. Há quem diga que ele tem muito a perder e pouco a ganhar. Os recentes movimentos de Campos passam a impressão de que o PSB não está à vontade na posição a que foi relegado. A situação do partido foi definida na bem-sucedida montagem das alianças de 2010 que levaram Dilma à Presidência. Aí, sim, tivemos novidade. Houve uma reconfiguração importante naquela oportunidade, com a incorporação do PMDB à base petista. O PSB perdeu, então, a posição de principal aliado do PT.

A despeito do folclore de que os petistas não faziam alianças eleitorais, o fato é que o PT foi o único grande partido em 1989 a ter sua candidatura apoiada por uma coligação. O PSB estava na chapa e lá ficou nas demais eleições. A exceção se deu em 2002, quando Garotinho conseguiu impor sua candidatura contra a vontade da liderança do partido. O PSB voltou à família petista já no segundo turno da primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. A candidatura de Garotinho custou ao partido a vaga de vice-presidente, ocupada pelo PL. Dilma não é tão dada a inovações para romper com o PMDB. Por que o faria? Não há como viver sem o apoio do PMDB. Fernando Henrique e Lula bem que tentaram. Desistiram. Dilma nem tentou.

A aliança PT e PSB tem sido vantajosa para ambos. Houve, por assim dizer, uma divisão de mercados. O PT se dedica à Presidência; o PSB, aos estados. Essa divisão de mercados, porém, não foi tão clara nas eleições municipais de 2012. PSB e PT se enfrentaram em capitais onde antes cooperavam. Testaram forças, e os socialistas mostraram que conseguem defender seu território. Contudo, o PSB não se mostrou capaz de sair do Nordeste. Ganhou, fundamentalmente, onde já estava consolidado. Mesmo derrotado, o PT mostrou que não é carta fora do baralho onde o PSB governa. Improvisou candidaturas de última hora e incomodou. O recado está dado.

Eduardo Campos e o PSB, agora, têm três opções. A primeira é entrar em acordo com o PT para repetir a estratégia de 2010. O PSB apoia a chapa PT-PMDB em troca de garantias de que os dois parceiros deixarão o campo aberto — não lançarão candidatos ao governo estadual nas áreas de influência dos socialistas. Ambições pessoais e projetos políticos individuais podem atrapalhar aqui ou ali, mas as candidaturas ao Senado sempre podem funcionar como prêmio de consolação.

Uma segunda alternativa é a travessia do Rubicão, uma aliança com o ­PSDB em que Campos ficaria com a vaga de vice no ticket de Aécio. O acordo poderia ser selado com garantias análogas às dadas pelo PT. O PSDB e seus aliados se retirariam de alguns estados, apoiando os candidatos socialistas aos governos estaduais.

O acordo seria muito bom e vantajoso para Aécio, não tanto para o PSB. Isso porque o PSDB ganharia uma entrada e uma base eleitoral no Nordeste, algo que o PFL deu a Fernando Henrique e que o DEM não parece capaz de oferecer a Aécio. O PSB, contudo, chamaria o PT e o PMDB para a briga. A chapa Dilma-Temer construiria candidaturas de oposição nos estados dominados pelo PSB. Ou seja, o PSB colocaria em risco sua hegemonia em estados do Nordeste.

A terceira alternativa é uma aposta de longo prazo. Eduardo Campos pode se lançar à Presidência em 2014 com os olhos em 2018. Usaria a candidatura presidencial como forma de nacionalizar sua imagem, sair de Pernambuco e passar a ser uma figura nacional. Por que não tentar? No mínimo, o partido colhe uma terceira posição e se qualifica para a próxima rodada, a sucessão de Dilma, quando a chapa PT-PMDB não terá um candidato natural. A eleição de 2018 seria a oportunidade de ouro e a corrida começaria agora. Faz sentido. Mas há um problema. Um terceiro lugar não está garantido. O risco é não decolar e, em vez de mostrar força, escancarar fraqueza.

A sucessão de 2018 começou

Uma candidatura presidencial solo do PSB implicaria chamar as baterias de duas forças, PT e PSDB, que muito provavelmente apresentariam candidaturas próprias nos estados sob o controle do PSB. Em estados-chave, como Pernambuco e Ceará, o PSB não tem candidatos naturais, seus dois governadores estão num segundo mandato e não podem concorrer à reeleição. Sem controlar governos estaduais, não há trampolim para saltos em 2018.

O fato de Eduardo Campos ter diminuído sua exposição fora de Pernambuco nas primeiras semanas de maio mostra que o governador não quer adiantar o momento de sua decisão. Definir seu destino agora só aumentaria a possibilidade de virar alvo preferencial dos petistas. Mais discreto, ele dá sinais de que continua sonhando com o Planalto em 2014.

O cenário atual foi desenhado em 2010 com a bem-sucedida aliança PT-PMDB. O PSB, contudo, não pode se acomodar. Já está claro que não quer manter o status quo. Deve exibir o enorme atrativo que suas forças teriam para a oposição. Precisa fazer barulho, chamar a atenção e flertar. Quem conseguirá tirar o PT do Planalto? Quando isso vai acontecer? Bem-vindos à sucessão de Dilma.

Fonte: Exame

 

A escola de 2014, 2016 e 2018

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Jogos, conteúdos colaborativos e aplicativos para celulares estão revolucionando as salas de aula no Brasil, onde 72% dos estudantes já têm acesso à internet. Saiba como a tecnologia vai transformar o modo de ensinar e aprender nos próximos anos

por Rachel Costa

O acesso a computadores e celulares no ambiente escolar brasileiro experimentou uma vertiginosa ampliação na última década. Em 2005, apenas 35,7% dos estudantes tinham acesso à internet, segundo dados do IBGE. Hoje, o índice é de 72,6%. Essa invasão das tecnologias da informação e da comunicação está revolucionando a maneira de ensinar e aprender. Jogos, conteúdos colaborativos e redes sociais acadêmicas começam a entrar nas salas de aula. Nos próximos cinco anos, a transformação deve se disseminar a tal ponto que o giz e o quadro negro parecerão peças de museu. Testes por SMS, softwares sofisticados, em especial para tablets e smartphones, e aplicativos capazes de organizar as informações de acordo com as características do estudante serão a regra nas escolas brasileiras.

É claro que apenas equipamentos e material didático atraente não garantem a qualidade no ensino. “A mudança definitiva passa por transformações profundas no modo de agir, pensar e gerir a educação e as escolas”, diz Maria Teresa Lugo, coordenadora de projetos do Instituto Internacional de Planejamento da Educação, órgão ligado à Unesco. Uma nova tendência é a elaboração conjunta de conhecimento. A internet, além de facilitar o acesso a conteúdos, simplifica a troca e a produção de informação e saber. “As pessoas são naturalmente colaborativas e exercícios pedagógicos que promovem o aprendizado dessa forma são comprovadamente benéficos”, avalia Adeline Meira, pesquisadora no Centro de Excelência para o Ensino e Aprendizado da Universidade do Texas. A ajuda mútua vale tanto para o aluno quanto para os professores. “Não saberia dar aula se tivesse que escrever tudo sozinha”, admite a professora de tecnologia educacional Verônica Martins Carnata. Onde ela leciona, no Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, existe uma rede para que os docentes possam compartilhar seus planos de ensino, mostrando aos colegas o que deu certo na sala de aula. “É como se eu pegasse um livro de receitas que só tem fórmulas testadas por conhecidos”, diz Carnata. “O mundo hoje é colaborativo, e nós temos de nos adaptar.”

Outro modelo interessante para aproximar a comunidade escolar são as redes sociais acadêmicas. Um exemplo é a Koiné, que possui mais de 12 mil usuários e interliga todas as unidades de educação do Sistema S (como Senai e Senac). A rede serve de mural virtual para a comunicação entre a direção e os estudantes, de ponto de encontro entre alunos de um mesmo curso e para a realização de tarefas em conjunto. “Às vezes temos uma dúvida e não sabemos resolver entre os conhecidos, mas, se colocamos na Koiné, fica mais fácil, porque um aluno do mesmo curso que o nosso, mas de outro Estado, pode saber e nos ajudar”, diz Thaís Dias, 19 anos, aluna do Senai de São Gonçalo, no Rio de Janeiro.

Muitas iniciativas têm surgido ao redor do mundo com o desafio de testar essas fronteiras entre tecnologia e pedagogia. Uma delas, que desembarcou no início do ano no País, é o Sistema UNO, projeto educativo do grupo espanhol Santillana. Após atingir a marca de 420 escolas apenas no México e dezenas de outras na Argentina, no Equador, na Colômbia, em El Salvador e na Guatemala, o sistema mira agora no maior mercado de educação da América Latina: o Brasil. As mudanças na rotina já são evidentes nos colégios que o adotaram: em vez de cadernos e livros, os alunos passam a carregar tablets e o currículo passou a ser bilíngue, com grande ênfase no ensino do inglês. “O interesse dos estudantes é muito maior com os novos recursos disponíveis”, conta a professora Cleonice Rodrigues de Sousa Duarte, do colégio Santa Izildinha, em São Paulo, um dos pioneiros na adoção do Sistema UNO no Brasil.

As novas tecnologias também modificam a relação entre mestre e aluno, dando cada vez mais protagonismo aos estudantes. “O professor que sabe tudo não existe mais”, diz a coordenadora do curso de programação de jogos do Núcleo de Estudos Avançados em Educação (Nave), do Rio de Janeiro, Érika Pessoa. No colégio técnico, jovens entre 15 e 17 anos são postos diante do desafio de transformar em games algumas das matérias estudadas no ensino médio. “O que usei no jogo, nunca mais esqueci”, conta Carolina Rosa, 17 anos, que desenvolveu um game sobre reciclagem de materiais, conteúdo que viu nas aulas de biologia e agora será usado por outros estudantes da rede pública do Rio. Um estudo da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) mostra que o uso desse tipo de recurso melhorou em mais de 30% o desempenho dos alunos nas aulas de física e matemática. Quando analisados aqueles estudantes com pior rendimento, a diferença na nota foi ainda maior – o avanço foi de mais de 50%. “Percebemos uma maior motivação entre os alunos porque eles conseguem ver que aquilo faz mais parte do cotidiano. É mais fácil falar de análise combinatória se ele vê isso em um game, estampado em combinações de roupas possíveis para uma bonequinha”, exemplifica o professor Sílvio Fiscarelli, um dos responsáveis pelo estudo.

Os resultados positivos têm motivado cada vez mais o desenvolvimento de ferramentas e de conteúdos para as salas de aula. Uma das áreas que têm estado de olho nas oportunidades são as start-ups, pequenas empresas de tecnologia responsáveis por desenvolver grande parte das inovações que chegam todos os dias ao mercado. Um bom exemplo é a Geekie, uma plataforma para a personalização de conteú­do criada por dois brasileiros que se conheceram nos Estados Unidos. O foco atual está na preparação dos alunos para o Enem, mas o objetivo dos criadores é, em um futuro próximo, ampliar os usos da plataforma no sistema de ensino. “Usamos uma tecnologia parecida com a usada pelo Google, pelo Faceebok e pela Amazon, só que dirigida à educação”, explica Claudio Sassaki, um dos fundadores da Geekie. “Conforme a pessoa interage com a plataforma, vai descobrindo qual é o seu perfil.”

Assim, toda vez que um aluno responde a uma das questões do simulado, o sistema define, de acordo com os erros e acertos do usuário, quais são as áreas em que ele tem bom desempenho e quais precisam de um reforço. O diagnóstico pode ser usado tanto pelo próprio estudante quanto pelo professor, que tem acesso aos resultados individuais e a um panorama geral da classe. Giovana Batista, ex-aluna do Colégio Bandeirantes, em São Paulo, aproveitou as dicas do programa para ajustar seus estudos e garantir uma vaga na universidade. “O relatório me mostrou que eu precisava estudar mais geometria. Dei mais atenção à matéria e isso foi ótimo, porque caíram várias questões no vestibular”, conta. “Queremos agora ampliar o uso do software não apenas para os simulados, mas para exercícios em geral. Assim, à medida que o aluno for resolvendo as questões referentes ao que tem de estudar, o programa será capaz de identificar seus pontos fracos e sugerir a que e como se dedicar”, diz Eduardo Tambor, diretor de planejamento do Colégio Bandeirantes.

E há ainda muito mais por vir. Em um experimento da Universidade de Durham, no Reino Unido, as carteiras tradicionais foram substituídas por outras digitais, com telas sensíveis ao toque. “Elas têm a vantagem de reunir os estudantes ao seu redor para visualizar e trabalhar sobre um mesmo conteúdo. Como não há o obstáculo dos monitores, a capacidade de interação fica muito maior”, disse à ISTOÉ a pesquisadora Emma Mercier, uma das realizadoras do projeto. Testadas por cerca de 100 alunos, as mesas digitais foram capazes de aumentar razoavelmente o rendimento dos estudantes quando comparados aos seus colegas que realizaram atividades semelhantes no cenário tradicional, com lápis e cadernos. No ambiente digital, a ampliação do repertório de expressões numéricas foi de 43%, contra 16% no grupo exposto à sala de aula convencional. “A tecnologia permite fazer coisas que são impossíveis sem ela, como realizar simulações e compartilhar conteúdos produzidos pelo estudante em uma tela vista por todos”, diz Emma. É a revolução acontecendo em tempo real.

Colaborou: Laura Daudén

Fonte: IstoÉ

Violência contra a mulher: mais de 40 mil homicídios femininos em uma década

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Por Luiz Flávio Gomes, no Brasil de Fato

Apesar dos avanços dos últimos anos, no que tange à violência contra a mulher, levantamento feito Instituto Avante Brasil apontou que 40 mil mulheres foram vítimas de homicídios no Brasil, entre 2001 e 2010. Só no ano de 2010, 4,5 entre 100 mil mulheres perderam suas vidas no país.

Consoante o Instituto Avante Brasil, em 2010, uma mulher foi vítima de homicídio a cada 1 hora, 57 minutos e 43 segundos. Em 2001, a média era de 2 horas, 15 minutos e 29 segundos. O crescimento de mortes anual, entre 2001 e 2010, foi de 1,85% ao ano.

A mesma projeção aponta que em 2013 deverão ocorrer 4.717 homicídios entre as mulheres brasileiras.

Segundo a Organização das Nações Unidas, cerca de 70% das mulheres sofrerão algum tipo de violência no decorrer de sua vida. E, de acordo com o Banco Mundial, as mulheres de 15 a 44 anos correm mais risco de sofrer estupro e violência doméstica do que de câncer, acidentes de carro, guerra e malária.

Na América do Sul, o Brasil só perde em homicídios de mulheres para a Colômbia, que registrou, em 2007, uma taxa de 6,2 mortes para cada 100 mil mulheres. Atrás do Brasil vem a Venezuela, com 3,6 mortes para cada 100 mil mulheres em 2007, Paraguai que registrou em 2008 1,3 mortes para cada 100 mil mulheres e o Chile com 1 homicídio feminino para cada 100 mil mulheres em 2007.

Pesquisa da Organização Mundial da Saúde, que traz informações de 2006 a 2010, mostra que, se comparado com alguns países com dados homogêneos, a diferença é ainda maior: o Brasil ganha da Rússia, que registrou, em 2009, 7,1 homicídios femininos, mas atrás de países como Estados Unidos, Japão, França e Reino Unido.

A Organização Mundial da Saúde sugere que existam alguns fatores de risco que podem ser associados a um indivíduo que pratica um crime contra a integridade física de uma mulher:

– níveis mais baixos de educação (perpetração da violência sexual e da experiência de violência sexual);

– exposição a maus-tratos (perpetração e experiência);

– testemunho de violência familiar (perpetração e experiência);

– transtorno de personalidade antissocial (perpetração);

– uso nocivo do álcool (perpetração e experiência);

– ter múltiplos parceiros ou suspeita por seus parceiros de infidelidade (perpetração), e atitudes que estão aceitando de desigualdade violência e gênero (perpetração e experiência).

Apesar de todas as campanhas e recomendações das Organizações Mundiais contra a violência feminina, o que se vê (no Brasil) são números que crescem e preocupam a cada dia mais.

O número de estupros no estado de São Paulo, por exemplo, ganhou proporções descomunais. O número de vítimas não para de crescer. Segundo dados da Secretaria de Segurança de São Paulo, o crime de estupro foi o delito que mais aumentou nos últimos anos no nosso Estado. De 2005 a 2012 houve um crescimento médio anual de 19,7%, o que significa uma alarmante evolução de 230%.

Não basta apenas apresentarmos soluções ou agravarmos esse tipo de crime, mais que isso, faz-se necessário que os cidadãos sejam educados à valorização da vida e do ser humano de um modo geral.

Especialmente no que tange às mulheres, que por fazerem parte durante décadas de uma sociedade patriarcal, encontram dificuldades no momento em que percebem estar sendo vítima do abuso ou da violência, de denunciar seus opressores, muitas vezes parceiros e membros da família.

De cada quatro equipes de saúde da família, uma está incompleta em Porto Alegre

Sem médico em 25% das Unidades de Saúde da Família, população recorre a UBS ou emergências, multiplicando o caos em busca de socorro
A porta de entrada para o atendimento em saúde da Capital está capenga. Das 182 equipes de Estratégia de Saúde da Família (ESF) existentes, pelo menos 46 estão sem médicos. Ou seja: a cada quatro unidades, uma não oferece consultas. Há comunidades sem atendimento desde janeiro. Este caos se reflete nas longas filas em postos e emergências.

Essa realidade coloca o município em conflito com a legislação, ao descumprir a Lei 11.062, de 6 de abril de 2011, que cria o Instituto Municipal de Saúde da Família (Imesf) e atribui funções e condições de trabalho aos seus membros, inclusive médicos.

Fernanda: asma, diabetes…

Onde estão aqueles que deveriam, conforme o estatuto do Imesf, “realizar consultas clínicas e procedimentos nas Unidades de Saúde da Família (USF)” com carga semanal de 40 horas?

Essa é uma pergunta que pacientes como a diarista Fernanda Balz Batista, 25 anos, não sabe responder. O que ela sabe, sim, é que a USF Safira, no Bairro Mario Quintana, onde ela e a família deveriam consultar, é uma das que está sem médico desde janeiro:

– A minha mãe tem diabetes, tenho duas filhas com asma e não temos como acompanhar. Preciso correr para a emergência e esperar horas por uma consulta.

Sem o filtro da USF, as emergências transbordam. E mais: sem encaminhamento do posto, ela não consegue, por exemplo, atendimento com especialistas, como pneumologista, para tratar das filhas.

Maria: “Isso é muito ruim…”

Outra moradora da região que sofre com a falta de médicos é Maria Jocelaine Cassimiro Paz, 30 anos. Desempregada, a mãe de Yasmin, um ano e três meses, e de outros três filhos passa por percalços:

– Se dá uma febre, uma diarreia, tem que ir no Postão da Bom Jesus ou no Conceição. Se tivesse médico aqui… Isso é muito ruim, tem muita gente que precisa.

Aposta no concurso, com forte reajuste

Pelo menos 15 médicos do concurso anterior do Imesf estão em processo de admissão na Secretaria Municipal da Saúde.

E um novo concurso, com oferta de outras 60 vagas, está previsto para ser lançado neste mês, trazendo alguns atrativos para os candidatos.

– Apresentamos um projeto para o prefeito, para incluir alguns itens no próximo concurso – explica o secretário municipal da Saúde, Carlos Henrique Casartelli.

Essas modificações devem permitir que a remuneração chegue a até R$ 16 mil. Contudo, o secretário defende que o problema vai além: segundo ele, hoje são poucos os profissionais da saúde que têm interesse em se tornar médicos de família.

– Preciso de um (médico) que veja o paciente como um todo, não só como um coração ou um pulmão. O nosso problema se resolve quando o Ministério da Educação tomar para si a necessidade de formação de médicos que o Brasil precisa – acredita.

A situação da ESF em Porto Alegre

Porto Alegre conta com 88 Unidades de Saúde da Família (USF), que representam a Estratégia de Saúde da Família (ESF).

Cada USF pode ter de uma a quatro equipes médicas.

No total, são 182 equipes de USF em atividade.

Destas equipes, 46 estão sem médico. Ou seja: 25%.

Cada equipe tem, no mínimo, um médico, um enfermeiro, um técnico de Enfermagem e quatro agentes comunitários.

Informações: Carlos Henrique Casartelli

De norte a sul da cidade

O tormento para conseguir uma consulta não é exclusividade de uma região da cidade. É um problema que se espalha de norte a sul da Capital. Na USF Quinta Unidade, na Restinga, a cadeira de médico está vazia em 2013.

– Sofri um acidente de trabalho e preciso de um encaminhamento para fazer um exame na perna e levar na perícia. Desse jeito, acho que vou ter de pagar particular – resigna-se o pedreiro João Jesus de Quadros, 64 anos.

E não adianta tentar atendimento em outro posto, já que ele está cadastrado ali, assim como a doméstica Jussara de Oliveira, 55 anos. Ela busca encaminhamento para oftalmologista, para fazer óculos novos, e não consegue.

– A população precisa de médico aqui. Se não, tem de ir para um hospital por coisas simples, como febre, gripe, e esperar na emergência – lamenta.

A solução será importar?

O Ministério da Saúde está detalhando um projeto polêmico: trazer profissionais de países como Cuba, Portugal e Espanha, por exemplo, para atuar no Brasil. A permissão de trabalho temporária, com regras específicas, deverá ser criada por meio de uma medida provisória.

O registro habilitará o profissional a atuar nas periferias das cidades ou em locais afastados, durante um período determinado. O prazo proposto é de três anos.

Contudo, as entidades médicas são contra a proposta, pois afirmam que não há falta de profissionais no Brasil, apenas uma distribuição inadequada. Também argumentam que o recrutamento de médicos dispensados de fazer a prova de revalidação (um teste de conhecimentos profissionais) traria uma medicina de qualidade questionável às classes mais pobres da população.

Fonte: Diário Gaúcho

Triplica o número de internos por tráfico

algemas

O número de adolescentes internados na Fundação de Atendimento Socioeducativo por envolvimento no mercado de entorpecentes cresceu 192% de março de 2008 até o mesmo período deste ano
Um fenômeno semelhante ao percebido nas cadeias gaúchas se repete dentro das unidades da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase): o aumento brusco, em poucos anos, de internos envolvidos com o tráfico de entorpecentes.

O número de adolescentes internados cumprindo medida socioeducativa por envolvimento com a venda de drogas cresceu 192% entre março de 2008 e março dete ano, segundo dados da Secretaria da Justiça e dos Direitos Humanos. No mesmo período, o total de internos da Fase caiu 19,3%.

Para especialistas e autoridades, o aumento está relacionado à penetração do mercado ilícito em comunidades pobres que mudou também a situação nos presídios. Conforme dados da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), no final de 2008, um em cada três (33%) detentos estava na cadeia por tráfico. Em junho de 2012, o número chegou a 60% do total de presos.

– O tráfico recruta adolescentes para funções na ponta da rede. Além de vender entorpecentes, eles são responsáveis, muitas vezes, pelas execuções de integrantes de grupos rivais – explica o delegado Heliomar Franco, coordenador de investigações do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfco (Denarc).

Se mantida a tendência, em breve o tráfico será a principal causa de internação de adolescente. Em 2008, era o quinto motivo, agora já é o segundo, perdendo apenas para o roubo. Apesar de continuar no topo da lista, no entanto, o crime contra o patrimônio com uso da violência segue caminho inverso: hoje são 354 internos na Fase contra 538 em 2008, redução de 34%.

– Penso que exista uma certa migração do roubo para o tráfico, pois o adolescente acredita correr menos risco e o resultado em termos de ganhos é mais previsível – acredita o juiz Angelo Furian Pontes, que atua no projeto Justiça Instantânea no Departamento Estadual da Criança e do Adolescente (Deca).

O índice se torna ainda mais expressivo quando se leva em consideração o fato de que o Judiciário gaúcho tem seguido uma orientação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que desaconselha a internação do adolescente na primeira vez que for flagrado vendendo drogas. Com exceção de casos onde o adolescente está envolvido também em outros atos infracionais, como porte de arma, os magistrados tendem a se guiar pela súmula 492 do STJ, de agosto do ano passado. A adoção da súmula freou o ritmo de crescimento de internos por tráfico, que chegou a 226 adolescentes em abril do ano passado.

– Damos uma chance para ele pensar no que está fazendo. É um divisor de águas. Explicamos que, na próxima vez, ele será internado, no mínimo, por 45 dias – explica Pontes.

Um perfil cada vez mais juvenil

Convicto de que o tráfico se tornou uma opção ilícita de renda em comunidades da periferia, o magistrado explica que a maioria das audiências que conduz com infratores é por envolvimento no comércio de entorpecentes. Na segunda-feira passada, por exemplo, das 20 audiências com adolescentes, oito eram por suspeita de tráfico, duas por posse de entorpecentes e duas por homicídios relacionados a disputas por bocas de fumo.

– A primeira vez que chegam aqui, eles parecem não ter muita noção do que está acontecendo. Acreditam no “não vai dar nada” – conta o juiz.

Mesmo sem uma estatística precisa, o magistrado estima que boa parte dos adolescentes acaba retornando à sala de audiência meses depois. Em alguns casos, envolvidos com crimes mais graves como homicídios.

– A maioria dos casos de homicídios cometidos por adolescentes é relacionada à disputa entre quadrilhas – conta o juiz.

O dia a dia do magistrado indica ainda o perfil cada vez mais juvenil dos cooptados pelo tráfico. Segundo o juiz, são adolescentes pobres que abandonaram a escola com idades entre 14 e 15 anos, alguns portando armas:

– Um garoto de classe média, quando para aqui (unidade da Fase), é, geralmente, por bullying. E mesmo assim é um em cada 50, 60 infratores. Adolescente no tráfico é um problema de segregação social – avalia o magistrado.

A posição é compartilhada pelo professor do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS), Juan Mario Fandiño Mariño. Segundo o doutor em Sociologia, o tráfico acaba por oferecer a adolescentes excluídos uma oportunidade ilícita de ganhos.

Com isso, o narcotráfico teria se tornado o principal impulsionador da criminalidade nas últimas duas décadas no Brasil.

Para o professor de Direito Penal da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS) Rafael Canterji, o crescimento no número de internações por tráfico indica que a estratégia de combate ao narcotráfico não é a mais correta.

– O Estado permaneceu inerte por anos, permitindo que a criminalidade ocupasse os espaços físicos e preenchesse a vida dos jovens. Reverter a situação demandará investimentos sociais cujos resultados podem demorar a aparecer, mas não há alternativa. Quanto mais insistirmos apenas em repressão, mais espaço perderemos e mais violência geraremos – avalia.

Um programa que ajuda a reduzir retorno para a unidade
Por trás da queda de 19% no número de internos da Fase está a combinação de duas medidas. Uma judicial – a adoção da súmula do STJ que sugere a não internação no primeiro flagrante por tráfico – e outra de acompanhamento após a internação.

Criado durante o governo de Yeda Crusius, o programa de acompanhamento de egressos da fundação foi ampliado pelo atual secretário da Justiça e dos Direito Humanos, Fabiano Pereira. A proposta é simples: ao terminar o tempo de internação, o adolescente pode optar por continuar sendo acompanhando pelo Estado por mais um ano.

– Neste período, ele tem a chance de fazer cursos profissionalizantes e trabalhar como aprendiz, por exemplo. Ele ganha metade de um salário mínimo, descobre que pode ter um futuro diferente – explica o secretário.

Além do trabalho, ele continua recebendo atendimento psicossocial durante o período.

– Todo mundo que retorna para casa, quer retornar bem. Tem de estar com a autoestima alta, com boas perspectivas de futuro. No caso dos envolvidos pelo tráfico, eles precisam ter uma alternativa viável, concreta de trabalho – ressalta Pereira.

Chance de livrar jovens do crime

Os resultados chamam a atenção. Dos adolescentes que aceitam ser acompanhados neste programa, apenas 9,5% voltam a cometer atos infracionais. O índice, geralmente, oscila no Brasil, ficando entre 70 e 90%.

A aposta na ideia é bem vista pelo professor de Direito Penal da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS) Rafael Canterji:

– Começamos a ter oportunidade de retirar jovens da criminalidade quando o Estado neles investir. Os resultados aparecem, nem sempre em curto prazo, mas não há outra alternativa – argumenta o professor.

Fonte: Zero Hora

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