A pior corrupção é gerar exclusão e fome

ENTREVISTA – Dom Mauro Morelli Bispo emérito e presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Minas Gerais

Bispo emérito da Diocese de Duque de Caxias (RJ) e presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Minas Gerais, dom Mauro Morelli, 77 anos, é um dos principais ativistas contra a fome no país. A vitória nessa batalha, afirma, não está em iniciativas assistencialistas. A estratégia correta, prega dom Mauro, reside em medidas que diminuam a desigualdade de renda, como a aposta na educação. A ampliação de programas de alimentação na escola, o que fortaleceria agricultura familiar brasileira, é uma das prioridades. Em passagem pelo Estado, Dom Mauro recebeu ZH. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Zero Hora – Como o Brasil pode acabar com a fome?

Dom Mauro Morelli – A fome é um problema social grave, de matriz econômica e solução política. Não existe nada que desfigure tanto o ser humano quanto passar fome. A pior corrupção é um país concentrar riqueza e gerar exclusão e fome. O que nós produzimos no país deve se reverter em bens repartidos. A comida é um exemplo. Precisamos que haja um ajuste na distribuição dos bens. Com tudo que já se fez, e foi feito muito, acabou que foi pouco, dada a amplitude do problema. Estou falando da política do governo (de combate à fome). O enfoque é assistencial. O Bolsa-Família é uma exigência dos direitos de natureza assistencial. Mas temos de defender medidas estruturais e estruturantes que entrem na causa.

ZH – Quais seriam essas mudanças estruturais e estruturantes?

Dom Mauro – A revisão do modelo de desenvolvimento e de concentração de riqueza. A disparidade dos salários no Brasil é imensa. Isso tem de ser resolvido pelo Congresso. É preciso taxar grandes fortunas, rever essa estrutura. É uma questão de segurança nacional. Como as pessoas vão se alimentar se não têm recursos? Outra coisa que é importante é de natureza da política agrária e agrícola. Reforma agrária é um projeto capitalista, não socialista. Os Estados Unidos fizeram, o Japão fez, e o Brasil, não. A FAO (órgão das Nações Unidas para alimentação e agricultura) reconhece que quem mais produz alimento é a agricultura familiar. Outra solução para repartir a riqueza é a escola de tempo integral. A criança passa oito horas na escola e estuda. Não é possível educar ninguém sem alimentação. Pobres e ricos deveriam comer na escola.

ZH – Como a agricultura familiar pode ser apoiada?

Dom Mauro – Hoje, você tem algumas políticas interessantes, como o Programa de Aquisição de Alimentos, que é uma concessão do tipo “vamos ajudar esse sujeito, dar um apoio para ele”. Mas é mais do que isso. O Brasil conquistou um grande programa de alimentação escolar. Não é apenas um lanche, é uma alimentação completa. A alimentação é determinante para o Brasil ser um país de primeira linha. Trinta por cento deve ser abastecido pela agricultura familiar, produzido no município. O alimento mais saudável é aquele produzido mais próximo da escola, por aquele que come o que produz.

ZH – E qual seria o papel do Rio Grande do Sul, que tem uma agricultura familiar muito forte?

Dom Mauro – Acho que a agricultura familiar gaúcha deve ser sujeito de um grande processo de transformação cultural por meio da sua organização, de sua competência, e promover aquilo que se chama de economia solidária. Governos deveriam apoiar e investir na agricultura familiar. Isso significa apoiar o que é vida nos seus municípios. A vocação do Brasil é ser um grande produtor de alimentos. Mas alimentos saudáveis.

ZH – Os senhor sente as suas causas contempladas nos protestos que estão ocorrendo no país?

Dom Mauro – Estamos vendo uma sociedade consciente de que há muitas coisas acontecendo e não está satisfeita. Fico feliz de ver a juventude indo para a rua. É um processo de grande valor pedagógico. Ajuda as pessoa a ter maturidade. É um processo de maturação do exercício da cidadania.

Fonte: Zero Hora

Leave a reply

WP-Backgrounds Lite by InoPlugs Web Design and Juwelier Schönmann 1010 Wien