Porto Alegre vive mais um dia de protestos e de violência

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O cenário mudou, mas a história não. De diferente na manifestação realizada ontem, em Porto Alegre, só o itinerário escolhido pelos militantes. O final da história foi o mesmo dos demais protestos: enquanto a multidão marchava pacificamente pelas ruas da Capital, não houve problemas. Depois que pequenos grupos entraram em conflito com a Brigada Militar (BM), foi um passo para o início das depredações. Entre contêineres incendiados e lojas saqueadas, a noite de segunda-feira na Capital terminou com uma série de confrontos na Cidade Baixa e no Centro. O saldo de presos bateu um recorde. Segundo a BM, pelo menos 80 pessoas foram detidas. E em um universo menor de manifestantes: dessa vez, cerca de 10 mil enfrentaram a chuva e saíram às ruas – nas anteriores foram 20 mil e 15 mil.

Os ativistas se reuniram no Paço Municipal erguendo bandeiras contra diversos temas: a PEC 37 (que retira do Ministério Público o poder de investigação criminal), a “cura gay” e os gastos com as obras na Copa do Mundo eram apenas alguns deles. Havia, ainda, gente defendendo os direitos dos animais e dos índios, e até exigindo que o governo revisse a decisão de trazer médicos do exterior. Os que defendem valores mais justos para as passagens do transporte público – demanda que impulsionou os protestos -, também se fizeram presentes.

Não fossem os cartazes, a concentração em frente ao Paço poderia se confundida com uma grande festa ao ar livre. Enquanto as pessoas iam chegando e se aglomerando nas proximidades do Mercado Público, ambulantes aproveitavam para fazer um dinheirinho extra, vendendo churrasquinho, bebidas, capas de chuva e bandeiras do Brasil. Diante da prefeitura, um batalhão da BM permanecia impassível diante da multidão.

Por volta das 18h30min, a marcha partiu pela rua Júlio de Castilhos até a avenida Mauá, em um percurso diferente dos anteriores. Os ativistas seguiram na direção da Usina do Gasômetro, sempre de forma pacífica e sem tumultos. Quando subiram a avenida Loureiro da Silva, alguns ficaram em dúvida sobre qual o rumo que o grupo tomaria. A expectativa de alguns era de que se retomasse parte do trajeto seguido nas demais passeatas, indo pela avenida João Pessoa até a Ipiranga. Mas a marcha decidiu tomar o sentido contrário, em direção ao Centro, entrando na avenida Borges de Medeiros.

Segundo a Brigada Militar, pelo menos 80 pessoas foram detidas ontem

Na Esquina Democrática, os militantes pararam. O cheiro de vinagre (usado para atenuar os efeitos das bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela BM) tornou-se forte. Pode-se dizer que nesse momento, por volta das 20h30min, a passeata terminou. Um pequeno grupo entrou em atrito com a BM, que desde o meio da tarde fazia um cerco às ruas que desembocam no Palácio Piratini. O gás se espalhou rapidamente, provocando pânico e um corre-corre no viaduto da Borges.
“Sem violência! Sem violência!”, gritavam os manifestantes. Mas já era tarde. O regimento montado da Brigada se espalhava por diversas ruas transversais, dispersando a multidão. Com a passeata “desmanchada”, só ficaram na rua os depredadores e aqueles que não sabiam como voltar para casa.

Segunda-feira foi de clima apreensivo no Centro

Quando a Brigada Militar fechou as ruas no entorno do Palácio Piratini, ontem, no meio da tarde, a tensão tomou conta dos moradores do Centro. Afinal, o prédio do Executivo estadual já havia sido alvejado por vândalos, mas nunca tinha sido o destino final das manifestações até então.

Devido aos atos de depredação registrados nas mobilizações anteriores, vários estabelecimentos comerciais resolveram antecipar o encerramento das atividades. Depois das 17h, era difícil encontrar lojas e bares abertos na região próxima ao possível trajeto da marcha. Temendo serem alvos de vandalismo, órgãos públicos municipais, estaduais e federais tiveram expediente mais curto.

A impressão é de que o horário de pico do trânsito foi antecipado em uma hora. A pressa de muitas pessoas em garantir condução de volta para casa denotava preocupação com a provável falta de ônibus após o início da passeata, embora o diretor-presidente da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), Vanderlei Cappellari, tenha garantido que todas as linhas seguiriam funcionando normalmente, com pequenas alterações no trajeto, se fosse necessário.

No final da noite, pessoas que estavam na manifestação tentavam tomar ônibus ou táxi, mas sem sucesso. A cavalaria da BM fechou algumas das principais ruas do Centro e da Cidade Baixa, limitando as alternativas para quem queria voltar para casa. O jeito foi seguir a pé, tomando cuidado a cada esquina para não dar de cara com o “choque”.

Sem foco específico, protesto volta a reunir milhares na Capital

Os protestos realizados na noite de ontem em Porto Alegre tiveram um início pacífico. Sob chuva constante e, em alguns momentos, até forte, pelo menos cinco mil pessoas se concentraram em frente à prefeitura municipal e cobraram avanços e melhorias para o País.

A manifestação, quando convocada pela rede social Facebook, convidava a população a protestar contra um transporte público de má qualidade e contra a aprovação da PEC 37 pelo Congresso. No entanto, durante o ato, as bandeiras se perderam diluídas pela violência e vandalismo.

Os manifestantes eram os mais diversos no que se trata de perfil. Idosos, adolescentes, jovens e adultos mostaram sua insatisfação com pontos que acreditam merecer maior atenção por parte dos governos.

O Jornal do Comércio realizou uma enquete com os manifestantes ontem. Foram entrevistadas 57 pessoas, de forma aleatória, sobre o motivo que as levou à passeata.

Os pontos educação e passe livre tiveram 17 votos cada. O item reforma política obteve seis indicações, enquanto que saúde teve cinco. Contra a PEC 37 foram quatro votos. Melhorias no transporte, saída de Renan Calheiros e fim da corrupção tiveram dois votos cada. Falta de valores e contra a cura gay ganharam dois votos.

O aposentado Ibanez Ferreira, de 63 anos, espera que as manifestações consigam combater a corrupção. “Eu vim pela segunda vez protestar. E também estou aqui porque sou aposentado e precisamos de mais respeito com os aposentados, inclusive, no transporte público”, diz. Seu filho, Franco Ferreira, de 21 anos, estuda Economia e foi participar da caminhada contra a PEC 37. “Olha, eu ouvi o comandante da Brigada Militar dizendo que eles só reagiram depois que os manifestantes agrediram os policiais. Isso é mentira. Também estou aqui por isso”, afirma.

Assim como pai e filho, o casal de estudantes de Farmácia, Cristiano Larini, de 48 anos, e Luana Cardoso, de 31, acreditam que a ação da Brigada Militar (BM) acaba por incitar mais raiva na população, o que gera mais vontade de ir para a rua protestar. Eles esperam que o movimento alcance uma reforma política. “Podia começar aqui em Porto Alegre, na Câmara de Vereadores e na prefeitura. Acho ideal que o protesto aconteça em frente ao Palácio Piratini”, argumenta Larini.

“Nós trabalhamos para os ricos e para os bancos. A Dilma reduz o IPI dos carros, mas nem estrada nós temos! A saúde está falida. É preciso acabar com a corrupção urgente e com esse governo fraco. E tem mais: achei ótimo que vamos para o Palácio Piratini. Devíamos também ir para a frente do Palácio da Polícia para acabar com a impunidade”, declarou Jorge Lampert, de 39 anos, que é portador de deficiência e vem participando das manifestações. Segundo ele, na última passeata acabou sendo “salvo” por pessoas que retiraram sua cadeira de rodas do meio da avenida Ipiranga. “Não fosse isso, eu teria sido atropelado pelo grupo que corria fugindo da BM e por este pessoal que fica quebrando tudo.”

Na Praça Montevidéu, em frente à prefeitura, a banca de livros de Juarez Araújo da Silva, de 62 anos, expõe entre as revistas o cartaz de As 5 Causas, divulgada por um grupo anônimo em resposta às mídias de rádio e TV que alegam que as manifestações não têm uma causa específica, o que pode enfraquecer o movimento.

Além da PEC 37, um grupo distribuiu panfletos e cartazes pedindo a saída de Renan Calheiros da presidência do Senado e a criação de uma lei que torne a corrupção crime hediondo. “Minha banca foi pichada. Deixo o cartaz aqui porque quero mudanças no País. Esses que depredam as coisas se espelham nos deputados”, analisa Silva.

Tribunal de Justiça julga recurso da ATP contra redução da tarifa na Capital

A 22ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) julga nesta quinta-feira o recurso impetrado pela Associação dos Transportadores de Passageiros (ATP) contra a liminar que suspendeu o aumento da tarifa de ônibus em Porto Alegre.

A decisão, proferida no dia 4 de abril, pelo juiz Hilbert Maximiliano Obara, da 5ª Vara da Fazenda Pública, determinou que os valores cobrados nos ônibus da Capital retornassem a R$ 2,85, em vez dos R$ 3,05 aprovados pela prefeitura. A ação cautelar que resultou na medida é de autoria dos vereadores do P-Sol, Fernanda Melchionna e Pedro Ruas.

Fonte: Jornal do Comércio

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