Mais de 20 mil vão às ruas em Porto Alegre

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Nem mesmo a chuva que caía desde o início da tarde sem parar impediu que mais de 20 mil pessoas de todas as idades e com as mais diversas motivações se dirigissem para a frente da prefeitura de Porto Alegre para mais uma manifestação. Às 18h, horário marcado pelo grupo Bloco de Luta pelo Transporte Público em sua página no Facebook, os ativistas já eram milhares.

Por volta das 18h30min, começaram a marchar observados de perto pela tropa de choque da Brigada Militar (BM), gritando em coro “O povo acordou” e “Sem violência”. Um grupo saiu pela avenida Júlio de Castilhos, outro pela Borges de Medeiros e um terceiro se manteve em frente ao Paço Municipal. A passeata voltou a reunir o grupo na avenida João Pessoa.

No percurso, o pequeno grupo de vândalos, que tem se posicionado alguns metros à frente dos manifestantes, gritava avisando que haveria vandalismo. “Melhor entrar”, avisavam para as pessoas que estavam nas suas casas olhando o movimento.

Em frente ao Jornal do Comércio, essa minoria ensaiou atos de depredação nas paradas de ônibus. Conforme o combinado pelo Facebook, os manifestantes sentaram no chão, deixando bem claro quem estava causando o tumulto – ajudando a BM a identificar “as individualidades”, como classificou o secretário da Segurança do Estado, Airton Michels, durante coletiva nesta semana.

No cruzamento da João Pessoa com a Ipiranga, o grupo que anunciava que haveria vandalismo dobrou à direita na pista Centro-bairro da Ipiranga. Os manifestantes pacíficos dobraram na mesma direção, mas na pista bairro-Centro, com o objetivo de caminhar até o Parque Marinha do Brasil. Muitos carregavam flores nas mãos e gritavam “Quem não pula quer o aumento” e “Vem prá rua”.

A caminhada prosseguiu sem incidentes até chegar na Ipiranga próximo à Azenha, por volta das 20h. Foi quando a BM passou a atirar bombas de efeito moral em direção aos manifestantes. Os policiais, que até então apenas acompanhavam a passeata, fizeram uma barricada humana impedindo o trânsito dos pedestres que se aproximavam da Azenha. Nesse momento, ficou evidente a separação entre quem estava na passeata para entrar em confronto e fazer depredações e quem estava fazendo um protesto contra o aumento das passagens de transporte público, a corrupção, os gastos com a Copa do Mundo de 2014, entre outras pautas.

Apesar dessa distinção entre a ala pacífica e a mais radical, a BM passou a atirar em qualquer pessoa que se aproximasse dos policiais. Michels e o governo do Estado garantiram que a polícia só iria agir em casos em que a integridade física das pessoas estivesse em risco. O pessoal cantava em coro “Sem violência” e vaiava a ação tanto da corporação quanto dos vândalos. Inúmeros ativistas foram alvo da ação sem terem enfrentado a polícia.

A partir daí começou o corre-corre. Enquanto o confronto ocorria, uma grande parte da manifestação ainda não havia nem chegado ao final da João Pessoa. A BM agiu para fazer todas as pessoas recuarem. Os vândalos passaram a saquear lojas, quebrar orelhões, arrancar placas de sinalização e atirar pedras e pedaços de pau contra os policiais e contra prédios públicos e privados.

A maioria dos manifestantes lamentava o fato. Pessoas mais velhas e as que estavam com crianças abandonaram o movimento com medo e por conta da quantidade de gás lacrimogêneo lançado pela polícia. No meio da correria, também havia gente chorando porque estava desde as 17h tentando chegar em casa e não conseguia pela falta de ônibus e pelo clima de guerra nas ruas. Quem se machucou no confronto passava carregado por amigos indignados com a situação.

Depredações e saques no Centro e Azenha

Perto das 21h, alguns manifestantes foram protestar em frente ao Palácio Piratini, ainda debaixo de chuva. Outros seguiam pela João Pessoa, reclamando da polícia e dos vândalos – mas, sobretudo, da polícia. A revolta foi visivelmente crescendo contra a BM a cada bomba de efeito moral.

Na João Pessoa, a agência do Banrisul foi novamente destruída pelos vândalos. A cavalaria entrou em ação. Em todos os cantos, atrás de árvores, de carros, as pessoas questionavam os brigadianos: “por que não nos deixam caminhar pela Ipiranga, da Azenha até a Beira-Rio, e permitem que os vândalos quebrem toda a cidade, com exceção desse trecho?”

Uma outra parte dos ativistas lamentava a violência e dizia não compreender o que está acontecendo no País. Mesmo assim, não arredavam pé das ruas, apesar do frio, da chuva e do gás lacrimogêneo. Declararam abertamente que gostariam de ter alguém que coordenasse e estipulasse outras rotas para não ficar junto dos vândalos. Em comum entre todos os grupos, a reclamação da ação policial.

Após o confronto na avenida João Pessoa, os manifestantes se dirigiram novamente à prefeitura e entraram em conflito mais vezes com a BM. A tropa de choque estava fazendo o isolamento do prédio, sem deixar que o pequeno grupo restante se aproximasse do local. Os enfrentamentos aconteceram na rua José Montaury, no Largo Glênio Peres, na Siqueira Campos e na Esquina Democrática. Diversas ruas do Centro da Capital foram bloqueadas pela polícia. Novas depredações e saques ocorreram no Centro, especialmente em lojas na avenida Voluntários da Pátria. Pelo menos 35 pessoas ficaram feridas, sendo um policial militar. Mais de 15 foram presos.

Fonte: Jornal do Comércio

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