Decisões recentes entram nas reivindicações na Capital

Por Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21

Nem mesmo a chuva que caía desde o início da tarde sem parar impediu que mais de 20 mil pessoas de todas as idades e com as mais diversas motivações se dirigissem para a frente da prefeitura de Porto Alegre para uma nova manifestação. Às 18h, horário marcado pelo grupo Bloco de Luta pelo Transporte Público em sua página no Facebook, os manifestantes já estavam em grande número.

Por volta das 18h30min, eles começaram a marchar observados de perto pela tropa de choque da Brigada Militar, gritando em coro “O povo acordou” e “Sem violência”. Um grupo saiu pela avenida Júlio de Castilhos, outro pela Borges de Medeiros e um terceiro se manteve em frente ao Paço municipal.

Apesar de o prefeito José Fortunati ter anunciado na terça-feira o envio de um projeto para a Câmara Municipal com o objetivo de baixar a passagem de ônibus na Capital para R$ 2,80 e pedido ao governador Tarso Genro a isenção de 12% de ICMS – o que faria a tarifa dos coletivos ficar entre R$ 2,73 e R$ 2,75 -, as manifestações se mantiveram.

Sob a frase “Não é só por R$ 0,20!”, os protestos mantêm a linha de que todas as causas são importantes, como melhor educação, segurança pública e saúde e a não aceitação da PEC 37, do estatuto do nascituro e, até mesmo, a renúncia de Renan Calheiros como presidente do Senado.

E o que se viu nesta quinta-feira foi justamente isso: um protesto marcado pela diversidade das reivindicações. Boa parte dos manifestantes concorda que o valor da passagem foi apenas o estopim para estourar o descontentamento total da população e fazê-la sair às ruas. Entre as reivindicações, não expostas nos cartazes devido à chuva, mas bradadas nos gritos de ordem, estavam tanto temas amplos como a saúde e a educação, quanto bem específicos, como a mudança de lugar dos camelôs no Centro da Capital.

A cientista política Soraia Ritten, de 40 anos, participou da manifestação com as duas filhas estudantes. O que as motivou a sair às ruas na noite chuvosa foi a desigualdade e a corrupção. “Os R$ 0,20 são uma representação da corrupção. É preciso uma grande mudança neste momento. A luta continua”, afirma ela, que participará na próxima semana de outro protesto contra a PEC 37.

A filha de Soraia, Michele Ritten, estudante de Biomedicina de 21 anos, explicou que sempre ouve pessoas comentando que não entendem o ato e acham uma bobagem. “Acho bem legal, porque os R$ 0,20 eram importantes, mas abriram espaço para uma coisa bem maior, com cada vez mais gente. Eu diria que agora, o mais importante neste momento é lutar contra o Ato Médico e a PEC 37, mas sem esquecer da educação e da saúde”.

Mauro Biedzicki, de 46 anos, é servidor público e se mobilizou contra os desmandos da administração pública. De acordo com ele, é preciso que as pessoas tomem essa atitude, de sair às ruas, para que os administradores vejam que a coisa está errada. “No tempo das campanhas eleitorais eu participava de protestos, mas estavam meio parados. Como estou vendo a juventude de novo, vim dar uma acompanhada. Essa é a primeira vez, mas continuarei participando das próximas”, contou.

Outro funcionário público que participou dos protestos desta quinta-feira e com uma lista extensa de reivindicações foi Célio Golin, de 51 anos. “Todas essas questões de privatização do espaço público, do dinheiro gasto na Copa, a questão da política institucional e o desgaste das instituições são temas que me tocam”, explicou. Porém, outro tema recente serviu de combustível para a sua participação. Segundo Golin, que é militante do movimento gay, um dos temas que devem ser abordados nas manifestações são as atividades da Comissão de Direitos Humanos, que inclui a chamada “cura gay”. “Já participei e organizei vários protestos na minha vida. Acredito que o maior ganho de toda essa mobilização vai ser a politização da sociedade civil, que vai fazer com que os poderes pensem melhor na hora das decisões, pois vão saber que a população estará fiscalizando as suas iniciativas”. Na opinião dele, as questões do transporte público são simbólicas, pois existem temas bem mais importantes para serem discutidos no Brasil.

O camelô Juliano Frippe, de 46 anos, foi em direção à prefeitura com um recado direto ao prefeito. “Queremos agradecer ao Fortunati pela insensibilidade que fez com que esse protesto começasse. Parabéns ao prefeito por ter sido tão ingrato com a população que acreditou nele”, criticou. Frippe afirma que sua maior luta é para que o espaço da Praça XV seja devolvido aos camelôs. De acordo com ele, muitos trabalhadores ficaram sem serviço com a privatização do camelódromo. “Agora o Brasil começou a mudar a sua cara. O Fortunati foi a principal pessoa que fez o gigante do Brasil se revoltar, quando ele decidiu pelo aumento da passagem. Isso foi a gota d’água”, ressaltou.

Já o estudante de Marketing Raul Dias, de 21 anos, participou do protesto com o objetivo de mudar o País. Essa foi a primeira vez que ele esteve nas manifestações e pretende continuar, devido à empolgação do ato. “Dinheiro para estádio tem, dinheiro para colocar na cueca tem, mas para mudar o Brasil nunca se tem. As autoridades precisam acordar e ver que não dá mais assim”, disse.

A marcha seguiu sem conflitos até as 20h30min. Grupos pequenos em diferentes pontos da cidade depredaram prédios comerciais. Cerca de 20 a 30 pessoas quebraram vitrines de lojas e cortinas de ferro e saquearam locais na avenida da Azenha e na Ipiranga. A tropa de choque usou bombas de gás lacrimogêneo. Na Lima e Silva, vidros foram quebrados por pedras. A cavalaria da Brigada tentou dispersar os manifestantes.

Bloco de Lutas denuncia abusos da polícia aos militantes

O Bloco de Lutas pelo Transporte 100% Público, grupo que organiza os protestos na Capital, convocou uma coletiva de imprensa antes da manifestação desta quinta-feira para divulgar uma carta com os seus principais objetivos e sobre os abusos que vem sofrendo por parte da polícia. Segundo Matheus Gomes, a criminalização ao movimento vem aumentando, com a perseguição de vários ativistas. Além disso, ele ressalta que uma grande confusão está sendo criada pelo governo e pela mídia sobre os temas que são defendidos pelo Bloco.

Segundo a carta, o grupo luta pelo Transporte 100% público, com a abertura das contas das empresas de transporte, e passe livre para estudantes, idosos e desempregados. Além disso, a mobilização também é contra o estado de exceção da Copa do Mundo de 2014, comandada pela Fifa. Outro tema que entrou na pauta foi a retirada imediata dos inquéritos movidos contra os manifestantes.

O advogado Onir de Araújo afirmou que as prisões têm sido feitas geralmente após as manifestações sem uma vinculação concreta com os supostos delitos. “Uma irregularidade que lembra o regime militar é que os policiais não estão identificados. Temos também comprovação de cenas de tortura dentro das delegacias. Seis pessoas ainda estão presas e os advogados não tiveram acesso aos inquéritos”, explicou.

Além disso, o advogado falou mal de determinado grupo de comunicação que noticiou informações sobre infiltrados internacionais insuflando os manifestantes. “Como se coloca em um veículo uma notícia dessas, neste clima em que a cidade está, com pessoas sendo arrastadas pelos cabelos, com bombas de gás lacrimogêneo sendo atiradas na frente de famílias. Queremos saber de onde veio essa informação”, criticou.

O Bloco de Lutas também disse que integrantes do grupo estão sendo monitorados pela polícia em suas casas. “Nos últimos meses, sofremos uma grande investida por parte da Polícia Civil contra manifestantes do nosso movimento. Jovens estão sofrendo investigações e acusações por se manifestarem na cidade”, dizia a carta.

Fonte: Jornal do Comércio

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