Inflação ameaça menos, mas ainda provoca tensão

Inflação-oficial-supera-expectativas-e-sobe-060-em-novembro

O recuo nos preços das commodities agrícolas e industriais está contribuindo para frear a inflação e criar um cenário mais benigno para a variação de preços. Os índices do atacado para bens agrícolas apontaram deflação em fevereiro e março no IGP-M, um sinal de alívio para o governo na tensa batalha de expectativas que trava para convencer os investidores que a inflação não ultrapassará o teto da meta, de 6,5%. Puxado pela queda dos alimentos, o Índice de Preços ao Produtor calculado pelo IBGE acumula deflação de 0,43% no primeiro bimestre.

A maioria das principais commodities agrícolas negociadas pelo Brasil vai encerrar o trimestre com cotações médias inferiores às do quarto trimestre de 2012 no mercado internacional. No mercado futuro de São Paulo caíram fortemente em março. Dos cinco produtos listados na BM&FBovespa, quatro tiveram preços inferiores à média de fevereiro. A soja liderou o recuo e caiu 8,7%, para US$ 28,06 a saca, menor cotação desde janeiro de 2012.

O combate à inflação com medidas de desaquecimento econômico é uma “política superada”, um “receituário que quer matar o doente”, definiu a presidente Dilma Rousseff, após a reunião dos presidentes dos Brics, o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (país que sedia o encontro). Ao responder a uma pergunta sobre pressões inflacionárias do Valor PRO, o serviço em tempo real do Valor, a presidente disse: “Não concordo com políticas de combate à inflação que olhem a questão da redução do crescimento econômico”.

No Brasil, as declarações repercutiram de imediato no mercado financeiro. As taxas de juros futuros recuaram rapidamente, sinalizando uma forte redução nas expectativas que davam como provável uma alta da taxa básica Selic no curto prazo – ou seja, em maio. Para operadores do mercado, as declarações da presidente corroboraram a percepção de que o Banco Central deseja protelar ao máximo o esperado aperto monetário.

A repercussão da fala da presidente no mercado pôs em marcha uma ação coordenada do governo para desfazer o mal-estar. O presidente do BC, Alexandre Tombini, disse ao “Broadcast” que a fala da presidente foi mal interpretada. “De inflação fala a equipe econômica. Em relação à política de juros, fala o Banco Central”, disse Tombini, que estava ao lado da presidente quando ocorreu a polêmica declaração.

Irritada com a situação, Dilma, por meio do blog do Planalto, disse ter sido vítima de “manipulação” na transmissão de suas declarações. No início da noite, a assessoria da presidência convidou os jornalistas brasileiros que acompanham o evento dos Brics ao resort onde Dilma tinha encontros com chefes de Estado, entre eles o chinês Xi Jinping, com a informação de que poderia haver notícia de interesse da imprensa no encontro. Após uma viagem de 45 quilômetros, os jornalistas puderam apenas ver a presidente de saída, que, após cumprimentar sorridente alguns diplomatas e ministros, passou pelos repórteres aparentando irritação.

“Só repudio manipulação da fala”, disse Dilma a um repórter que lhe perguntou se queria fazer um esclarecimento. “A notícia que saiu é manipulada”, acrescentou, sem, porém, esclarecer se fazia referência a uma manipulação por parte da imprensa ou do mercado financeiro. “Sou pessoa que até já escrevi que o combate da inflação é um valor em si”, disse, muito séria.

A tentativa do governo de desfazer o efeito negativo das declarações da presidente não repercutiu no mercado. Houve queda generalizada nas taxas projetadas nos contratos negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). No contrato DI (Depósito Interfinanceiro) com vencimento em janeiro de 2014, a taxa caiu de 7,79% para 7,74%. No DI com vencimento em janeiro de 2015, a taxa recuou de 8,52% para 8,46%.

“Já há quem diga que o discurso [da presidente Dilma] desfez boa parte do ajuste que o BC havia feito “no gogó” “, afirmou um experiente analista, referindo-se à alta que os juros futuros vinham registrando, provocada pelos sinais de preocupação do Banco Central com a inflação.

Quando foi abordada ontem para falar sobre as pressões inflacionárias no Brasil e as análises que apontam o pleno emprego como uma de suas causas, Dilma, a princípio, havia dito não querer falar de assuntos internos, fora do país. “Geralmente, nas questões específicas sobre inflação, eu deixo para serem faladas pelo ministro da Fazenda, mas vou adiantar algumas questões”, comentou, ante a insistência na pergunta.

“Esse receituário que quer matar o doente em vez de curar a doença é meio complicado”, disse. “Vou acabar com o crescimento no país? Isso está datado, é uma política superada.”

“Isso não significa que o governo não está atento e acompanha essa questão da inflação”, ressalvou a presidente, que disse acreditar, porém, que a inflação no Brasil “está controlada”. “O que há são alterações e flutuações conjunturais. Nós estaremos sempre atentos” afirmou. “Não tem nada que possamos fazer, a não ser expandir a produção para conter o aumento dos preços das commodities derivado da quebra da safra nos Estados Unidos”, analisou a presidente. “O pleno emprego você vai reduzir não com menos crescimento”, disse ela. Dilma citou as desonerações dos setores e a redução do custo da energia.

Fonte: Valor Econômico

Leave a reply

WP-Backgrounds Lite by InoPlugs Web Design and Juwelier Schönmann 1010 Wien